sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O MITO DA CAVERNA DE PLATÃO E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO NA PSICOLOGIA ANALÍTICA


AUTORA: Regina Carvalho Ferreira
TUTOR: Dr. Gelson Luís Roberto


O Mito da Caverna de Platão e o Processo de Individuação na Psicologia Analítica

    Para Platão, o verdadeiro sábio é necessariamente bom porque é a moralidade que confere a reta razão, a capacidade de discernimento da verdade. Em seu famoso Mito da Caverna, uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia, parte constituinte do livro VII de "A República",  Platão usa de metáforas para explicar as fraquezas humanas e necessidade de nos amarmos e nos conhecermos, de nos instruirmos para nos libertarmos da ignorância. Platão nos adverte da necessidade de buscarmos iluminar o espírito, buscando compreender a justiça e o bem de todas as coisas do mundo.    
    Conta O Mito da Caverna que homens estão desde a infância acorrentados pelas pernas e pelo pescoço de modo a não poderem movimentar nem mesmo a cabeça, permanecendo de costas para a entrada da caverna. Estão assim imobilizados e com o campo visual limitado, somente percebendo as sombras nas paredes internas projetadas pela luz de uma fogueira que arde atrás deles. Assim, imaginam que toda a luminosidade possível proveniente da luz da fogueira é a única que reina no mundo.
    Falando de maneira simbólica em relação ao mito, podemos dizer que a religiosidade faz estreitas ligações com o mesmo, principalmente o local, a caverna, despertando as questões mais íntimas. As ligações e associações são bem marcantes, começando pelo nascimento de Jesus numa gruta, assim como também foi em local parecido que seu corpo foi sepultado, após o calvário, até a ressurreição. Os santuários, os oratórios e as capelinhas parecem remeter a símbolos próprios para certa reflexão e contato interior.
    Em muitas culturas a caverna aparece como local apropriado para o nascimento e o renascimento, considerado como receptáculo de energia telúrica. Por estar normalmente incrustada em elevação ou área montanhosa, esse conjunto desperta a associação com o local propício aos deuses em muitos povos; na Grécia antiga, a organização divina feita por Zeus tinha como base o monte Olimpo.
    A caverna também tem relação com o sentido de chegada e partida, entrada e saída da vida, lembrando a importância do útero materno e do acolhimento necessário para as transformações. A Grande Mãe participa com seu princípio gerador e nutridor, propiciando também os incentivos para o crescimento; desse princípio sai a vida que também a ele retorna após cumprir a sua jornada. Como um retorno à origem, a caverna também é um local de regeneração. Entrar nesse ambiente pode significar um mergulho profundo, uma volta ao início, podendo então "subir ao céu", ultrapassar o cosmo da própria consciência, transcender. A caverna se apresenta como um local de passagem tanto da terra para o céu ou  como o caminho inverso. Lá, podemos encontrar dois aspectos: o positivo e o negativo - de todo grande símbolo, e o paralelo inevitável do mundo do inconsciente, de onde viemos (eu - ego) e para onde retornaremos, essa volta é sinalizada quando sonhamos e fazemos esta passagem transitória pelo mundo do inconsciente.
    De acordo com Jung, a psique humana é permeada por um jogo antagônico entre a atitude consciente e  inconsciente. É na relação destes opostos na busca da totalidade que temos uma das chaves para o processo de individuação. Isto envolve a aceitação de qualidades que conflitam com o ideal do ego e que, por vezes, confrontam valores culturais e morais, mas é uma condição importante para buscar o autoconhecimento, pois é a parte inconsciente de nossa personalidade. O ego é o centro da consciência, e em relação ao self, apresenta limitações por lidar com recursos disponíveis apenas na consciência, visto que esta não é capaz de contemplar todo o conteúdo presente no inconsciente. “Portanto, em minha concepção, o ego é uma espécie de complexo, o mais próximo e valorizado que conhecemos. É sempre o centro de nossas atenções e de nossos desejos, sendo o cerne indispensável da consciência” (JUNG, 1999, § 7).


    Para entendermos melhor, o que acontece é que  inicialmente o ego encontra-se fundido ao self, que no decorrer do desenvolvimento, inclusive propicia meios para que este ego confronte e/ou satisfaz, ele próprio, o self, como totalidade. Este relacionamento, entre ego e self, é um processo continuo, entretanto, apesar do self ter um estado de supremacia, depende do ego para estabelecer relacionamento com o exterior ou mundo cotidiano. Sendo assim, são dois grandes sistemas psíquicos interdependentes. A este relacionamento, utilizamos a expressão ou denominação de Eixo Ego-Self.  “É evidente que um tal modo de proceder só é legítimo quando há razão suficiente para tal. Só se pode deixar a condução do processo ao inconsciente, quando houver nele uma vontade de dirigir. Isto só acontece, quando a consciência está de certo modo em uma situação crítica. Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o ego e o inconsciente. Esta é a segunda e a mais importante etapa do procedimento, isto é, a aproximação dos opostos da qual resulta o aparecimento de um terceiro elemento que é a função transcendente. Neste estágio, a condução do processo já não está mais com o inconsciente, mas com o ego" (JUNG , OC - Vol. 8/2, 2013, § 181). É nesse jogo que tomamos consciência de muitas das nossas atitudes perante o mundo.
    Sendo assim, podemos entender que, no Mito em análise, a caverna é a imagem do mundo, mostrando a situação extremamente limitada do homem na Terra. "A luz indireta que ilumina suas paredes provém de um sol invisível: mas indica o caminho que a alma deve seguir a fim de encontrar o bem e a verdade: a subida para o alto e a contemplação daquilo que existe no alto representam o caminho da alma para elevar-se em direção ao lugar inteligível. Para Platão, o simbolismo da caverna implica portanto uma significação não apenas cósmica, mas também ética e moral. A caverna e seus espetáculos de sombras ou de fantoches representam esse mundo das aparências agitadas, do qual a alma deve sair para contemplar o verdadeiro mundo das realidades - o mundo das ideias" (Chevalier, 2008). Portanto, o indivíduo, à medida em que amplia a sua consciência através da descoberta de si e do mundo, avança em seu processo de individuação.



    Os prisioneiros tinham como única realidade as sombras projetadas nas paredes: deles próprios, dos outros homens acorrentados e também daqueles que, nas suas costas, mantinham acesa a fogueira. Com estes eles não tinham contato visual direto, e nem podiam imaginar que o Sol lá fora inundava a Terra com sua estonteante luminosidade. Ao trazer a possibilidade de um dos prisioneiros fugir dessa condição, em liberdade, descobre não apenas que as sombras eram feitas por homens como ele, mas também que provinham de todo o mundo de natureza até então desconhecida. Diante do novo mundo, encanta-se com coisas nunca vistas e com o esplendor do sol.  Aos poucos vai se adaptando, pois a luminosidade e as possibilidades de ampliação do conhecimento são impressionantes. Nesse contexto surge a questão crucial: e se este homem retornasse para contar aos prisioneiros tudo o que descobrira, como seria interpretado? Um mentiroso ou alguém dominado pela ilusão?
    Entendemos que a sombra que é projetada na parede descrita no mito representa a ilusão de um mundo vista pelos prisioneiros. É por estas imagens projetadas que reconhecem o mundo. No entanto, há muito mais a descobrir e conhecer fora da caverna. O homem de hoje está acorrentado em seus próprios pensamentos ilusórios. O que se percebe no mito e nos dias de hoje é que se vive um mundo de aparências. No mito, os prisioneiros acreditam que essas imagens é o mundo real, mas sabe-se que esse mundo é um mundo criado por outros e não um mundo vivido e experimentado pelo prisioneiro. Estamos constantemente negando nosso interior por ainda cultivarmos o  mundo ilusório. Usamos nossas máscaras sociais (persona) para lidar com esse mundo, criando aparências para sermos aceitos, o que dificulta a apresentação do eixo ego-self.
     Possivelmente Platão fala indiretamente aos seus ouvintes com suas crenças e supertições. Ele fugia das amarras comuns que prendem o homem e partia para uma compreensão mais ampla do mundo. Ainda sobre a metáfora, o processo para a obtenção da consciência abrange dois domínios: o domínio das coisas sensíveis e o domínio das ideias. Segundo Platão, a realidade está no mundo das ideias e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis, no grau da apreensão de imagens, as quais são imutáveis, não são funcionais e, por isso, não são objetos de conhecimento.
    O estudioso mais dedicado sabe que não pode perceber, apreender ou compreender a totalidade dos fatos e do mundo concreto. Para conhecermos a realidade se faz necessário percebermos melhor os objetos e o cenário do mundo exterior. Mas, nesse entendimento, terá enorme influência o modo como funcionamos interiormente, ou seja, como estamos lidando com esses sinais e imagens que transcendem o nosso ego, pois estes estarão interferindo na nossa percepção, nos nossos pensamentos, fantasias, intuições e atitudes.
    Conhecer nossas limitações pessoais é um início de uma longa jornada no processo de individuação e crescimento pessoal. O emblemático simbolismo do Mito da Caverna nos mostra as possibilidades de uma constante gestação de seres com maior ampliação da sua própria consciência e que parece ser esse o objetivo da vida que acontece nas diferentes culturas. Essa situação ocorre constantemente conosco, ainda mais se estamos muito enraizados ou presos em uma determinada crença ou cultura, por mais que nos sinalizamos outras possibilidades, é muito difícil nos abrirmos a novos pensamentos, atitudes.
    Sair da caverna, ou seja, deixar o homem velho, pode não ser algo agradável. Nos custaria abrir mão de uma vida construída com base em preconceitos e ilusões. Acreditamos que o que está diante dos nossos olhos é o real, mas ao buscarmos nos conhecermos, perceber novos caminhos e que há um novo mundo para além do nosso olhar, veremos que podemos ter uma vida saudável e plena. É o que chamaríamos de autoconhecimento. Contudo, é de grande valia a determinação, a disciplina, a coragem e a vontade para deixar a caverna, e acima de tudo, persistir fora dela. Diante das variadas dificuldades desejamos voltar para a nossa zona de conforto, regressar para uma postura cômoda quando nos deparamos com situações que nos exponham ou com situações que ainda não aprendemos a lidar. Muitas vezes, com isso, buscamos solucionar nossas dificuldades de maneira fácil, fugindo do enfrentamento dos problemas, das situações, sem nos darmos a oportunidade de enfrentar a realidade de maneira honesta conosco mesmo.    Na Psicologia Analítica, uma das coisas importante é buscar permitir que as pessoas fortaleçam seu potencial, sua criatividade e capacidade de lidar com os problemas de maneira mais tranquila e segura possível. Os conflitos que vivemos são oportunidades de olharmos para nossas vidas e de encontrarmos um meio de convivermos melhor com nossa luz e nossa sombra, pois parte do princípio de que existe um sentido para tudo o que ocorre na vida de todos nós. E esse sentido é a realização de um propósito maior em nossa existência. Avançando na psicoterapia nos aproximamos cada vez mais de nossa essência, do nosso sagrado trazendo a realização pessoal, um sentimento de unidade com a vida.
    Jung por meio de seus estudos nos trouxe o exercício analítico que ultrapassa a função paliativa: ao promover o autoconhecimento e a expansão da consciência. Ao olhar para dentro de si, você se percebe muito maior do que a consciência era capaz de imaginar. "Sua visão se tornará clara apenas quando você puder olhar dentro do seu coração. Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro acorda". Se liberta!


    Diante de seu legado sobre o processo de individuação, Jung nos diz que "tudo depende de como olhamos para as coisas, e não de como elas são em si mesmas". Nos esclarece também que "até onde conseguimos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência" e para que isso ocorra, a jornada deve iniciar de dentro para fora, ou melhor, olhar para dentro traz a possibilidade de nos conhecermos e deixarmos de lado as ilusões de como é, de como deveria ser, e de como não deveria ter certos problemas.  A individuação é um arquétipo, e no processo de individuação o self (Si-mesmo) promove chamados para este processo sem um final determinado, visto que a psique é dinâmica. No entanto, é preciso que o Ego queira e sinta-se motivado a cultivar este processo, cuja a tendência, muitas vezes é ignorá-lo, visto que, normalmente é um processo doloroso. "O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado a assim chamada função transcendente..." (Jung, OC - Vol. 6, 2013, § 854). "A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desenvolve sem que tomemos consciência, sem nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do indivíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação" (Jung, OC - Vol. 7/1, 2014, § 186).
    O Mito da Caverna faz referência ao processo de individuação quando nos mostra a necessidade de sair do mundo ilusório em busca de uma consciência maior a respeito de si e do mundo.


BIBLIOGRAFIA:

CHEVALIER, J. e Gheerbrant, A. Dicionário de símbolos. Rio de
Janeiro: José Olympio, 2008.

JUNG, C. G. Fundamentos de psicologia analítica. Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C. G. OC - Vol. 6. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, C. G. OC - Vol. 7/1. Psicologia do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2014.
JUNG, C. G. OC - Vol. 8/2. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNG, C. G. OC - Vol. 9/1. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
PLATÃO. O mito da caverna. São Paulo: Edipro, 2015.
STEIN, M. Jung: o mapa da alma : uma introdução. São Paulo: Cultrix, 2006.

BRASÍLIA
07/2017


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Análise dos Sonhos.


Por: Nathália M. Henriques
RESUMO
O presente artigo irá mostrar a importância da análise dos sonhos dentro da Psicologia Analítica e a relevância dessas imagens simbólicas que podem vir tanto de experiências pessoais, como das profundezas desconhecidas do inconsciente.
INTRODUÇÃO
Ás vezes nos sentimos tão perdidos, com problemas incontáveis e sem saber por onde começar, que até mesmo fazendo terapia não temos as soluções ou respostas que queremos. Nesse caso é preciso buscas novas formas para nos ouvirmos e nos entendermos melhor, e quem vai nos ajudar nessa escuta é o nosso inconsciente, onde ficam escondido as perguntas necessárias, as respostas que precisamos e os avisos importantes. E um dos caminhos mais fácies para se chegar ao inconsciente é o sonho.

Em
O caminho dos sonhos (1992):
Os sonhos nos indicam onde se encontra nossa energia e para onde ela quer ir. Todos sonhos é uma mensagem útil que propicia um insight sobre o sentido especifico de uma situação também específica da nossa vida (...). Se estudar nossos sonhos por um certo tempo, começaremos a perceber conexões significativas entre eles. ” (pg. 214)
Para conseguir entender toda essa energia e mensagem vinda de dentro de nós é indispensável a ajuda profissional, por isso é importante ter o auxílio de um psicólogo que vai ajudar o sonhador a enxergar um novo olhar sobre o que temos, que são “loucuras” da nossa cabeça.
Neste artigo irei abordar um pouco sobre como a utilização das imagens oníricas dentro da psicoterapia junguiana e sua facilidade para acessar o inconsciente, já que muitos ficam presos somente naquilo que é consciente e, de certa forma, real. Como o psicólogo deve deixar de lado muitos conhecimentos pré-concebidos, ser humildade e afirmar que não sabe nada sobre as imagens que são trazidas, e ter o cuidado ao adentrar nas profundezas dos sonhos. É preciso também trabalhar sua habilidade artística, pois por ser carregado de emoções e sentimentos, o olhar sensível é um ótimo aliado.

SONHOS 
O mundo onírico por muito tempo foi visto como algo misterioso e mágico, pois até a chegada da Psicologia e a revelação do inconsciente, o sonho era considerado como um sinal anunciador do destino, como um portador de presságios, um mensageiro dos deuses, cujo caráter podia ser consolador (Jung, OC VII/1, 1980). Mas Freud eJung, os primeiros a se aprofundarem sobre o assunto, fizeram com que os sonhos pudessem ter mais visibilidade, sendo reconhecidos como um caminho para nos conectarmos com o inconsciente, que nos revela os segredos escondidos pela consciência, o que ele realiza com surpreendente eficiência (Jung, OC VII/1, 1980). Sendo assim, podemos considerar que as imagens oníricas são importantes para auxiliar em um dos principais objetivos dentro da Psicologia Junguiana, que é a iniciação do processo de individuação, que consiste na confrontação dialógica entre o consciente e o inconsciente, que se unem e se comunicam através dos símbolos (Kast, 2013), ou seja, o analisando começa a seguir o caminho de encontro ao centro regulador, Self, onde reside o verdadeiro Eu. Para que isso aconteça é preciso que o terapeuta saiba como trabalhar com as imagens, entender como elas se comunicam e saber que não se esgotam em apenas um significado.
Segundo Gaeta e Catta-Preta (2012), as imagens oníricas que nos visitam diariamente fazem parte da expressão simbólica do nosso inconsciente, que se manifesta de diversas maneiras, e entrar no mundo dos sonhos não é uma tarefa tão simples quantas muitas pessoas consideram, mas Jung acreditava que o sonho é o melhor instrumento para acessar inconsciente. E de fato é a melhor via para seguir quando precisamos encontrar respostas genuínas e desvendar mensagens trazidas da nossa alma.
De acordo com Withmont e Perera (1995) no livro Sonhos - um portal para a fonte:


(...) a energia que flui nas imagens oníricas pode ser de muitos usos. Entre outros o sonho pode ser empregado para ter acesso a áreas inconscientes da vida, para receber mensagens específicas e temporalmente oportunas, de muitas espécies, que podem ajudar o sonhador a resolver problemas. (pg.12)
Essa mesma energia que flui dentro dos sonhos, também flui para fora e influencia na vida consciente do indivíduo, mas por ser feito de detalhes aparentemente pueris, que despertam uma impressão de algo ridículo ou então de tal modo incompreensível em sua superfície a ponte de deixar-nos desorientados (Jung, OC VII/1, 1980) e um fenômeno extraordinariamente complexo e complicado (Jung, OC VIII/2, 2000), cria-se uma resistência, mas quando essa mesma resistência é deixada de lado é possível buscar as respostas que estão dentro de cada indivíduo; incentivar o aprendizado e ajudar a completar o processo individual de desenvolvimento.
Para que se possa ter uma compreensão clara e satisfatória dos sonhos é importante que o sonhador busque a orientação de um psicólogo que o ajude a desvendá-lo, pois como descrito antes, o sonho de expressa por símbolos que representam conteúdos emocionais do sonhador, que poucas vezes consegue acessá-los sozinho (Gaeta e Catta-Preta, 2012). O analista vai facilitar e mediar a comunicação entre o mundo inconsciente do sonhador com suas ações realizadas em consciência, pois essa comunicação acontece o tempo inteiro, mas o indivíduo não presta a atenção necessária por conta de seus pontos cegos da consciência. Para utilizar a análise dos sonhos na prática clínica, requer do analista a habilidade de compreende-los tanto artisticamente quanto tecnicamente. É necessário se conectar com o seu lado artístico, pois a prática de analisar sonhos se vincula à percepção de fatores similares àqueles que interferem na análise da literatura, pintura ou música; a aplicabilidade dos princípios básicos deve ser determinada pelo sentimento, pela sensibilidade e pela intuição (Whitmont e Perera, 1995).
Jung (2009, apud GAETA e CATTA-PRETA, 2012, p.58) afirmou que “Os sonhos são as palavras-guia da minha alma”. Essa frase explicita, muito bem, o motivo das imagens oníricas terem grande valia dentro do processo terapêutico, pois quando o analisando vai de encontro com o sonho e começa a relatar ao analista, que vai inserir uma nova perspectiva sobre as imagens, estará se conectando com sua alma e consequentemente com seu centro-regulador (Self) de onde surgem todas essas imagens simbólicas com significados únicos, em que só o próprio sonhador consegue decifrar. Isso fará com que o sonhador comece a exercer um pensamento menos rígido e unilateral em sua vida consciente, auxiliando o indivíduo a resolver problemas e também despertar-se para dentro.
É fundamental tanto o analista quanto o analisando, terem paciência quando estiverem analisando um sonho, pois provavelmente não será na primeira ou segunda sessão de terapia que irão perceber e entender todas as imagens elaboradas pelo inconsciente. Von Franz (1990) afirmou que as pessoas em análise ás vezes desanimam, pois não percebem as pequenas mudanças que estão acontecendo, mas a mudança é algo muito gradual. Com o analista é preciso que ele entenda que nem todas as imagens precisam ser interpretadas pontualmente e ter um significado único e exclusivo. Antes de tudo o analista precisa reconhecer que não sabe nada sobre todo o material onírico que está ouvindo e se quiser evitar a sugestão consciente, deve considerar que uma análise de sono não tem valor enquanto não for encontrada a fórmula que implica o consenso do paciente (Jung, 1966, par.316 apud Whitmont e Perera, 1995, p.25). O único critério confiável de uma boa análise é o consenso do sonhador (Whitmont e Perera, 1995).
Von Franz (1992), O caminho dos sonohos, afirmou que:

“Ora os sonhos apontam para o indivíduo o sentindo único da sua vida também única. Talvez seja esse o aspecto mais importante da vida onírica (...) A realidade consiste de um imenso número de seres únicos e os sonhos nos ajudam a descobrir padrões únicos da nossa vida. ” (pg. 216 217)
A análise dos sonhos pode ser utilizada com qualquer pessoa, mas isso não quer dizer que vai ser o mesmo processo, as mesmas imagens, o mesmo significado para todos. Como são imagens simbólicas, vindas do inconsciente, elas não se esgotam numa definição fechada. São noções amplas, com significados infinitos, mas todos eles só serão válidos quando fizer sentido com o que o sonhador acredita e o momento de sua vida. “É isso que torna tão excitante trabalhar com sonhos. Nada se repete. Você nunca pode prever com precisão. A natureza sempre dá uma resposta criativa” (von Franz, 1992).

Artigo apresentado ao Instituto Junguiano de Brasília IJBsb como trabalho final de semestre do Curso de Psicologia Clínica de Orientação Junguiana.
Professora-orientadora: Rosa Brizzola.
Brasília Agosto, 2017.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Livros
Gaeta, I. & Catta-Preta, M. (2012).
Sonhos e Arte: diário de imagens. ed. São Paulo: Primavera Editorial.
Jung, C. G. (2008).
O homem e seus símbolos. Tradução de Maria Lúcia Pinho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Original publicado em 1964).
_________. (2000).
A Natureza da Psique. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2000. (Obras Completas de C. G. Jung, v. VIII/2)
_________. (1980).
Psicologia do Inconsciente. Tradução de Maria Luiza Appy. ed. Petrópolis: Vozes, 1980. (Obras Completas C. G. Jung, v. VII/1)
Kast, V. (2013).
A dinâmica dos símbolos: fundamentos da psicoterapia junguiana. tradução de Milton Camargo Mota. Petrópoles, RJ: Vozes.
Von Franz, M. L.
O caminho dos sonhos. São Paulo: Cultrix, 1992.
Whitmont, E. C. & Perera, S. B.
Sonhos: um portal para a fonte. Tradução Maria Sílvia Mourão Neto. ed. São Paulo: Summus, 1995.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

MOVIMENTOS DA ENERGIA PSÍQUICA: A REGRESSÃO



Por:
Marcos de Araujo Nogueira

Ressoa em mim uma frase que veio à lume em conversa com colegas psicoterapeutas: a Obra é maior que a vida. A frase imediatamente me catapultou para a nau de Argos e quando me dei conta estava nos braços de Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso.

Senti na frase parte do drama de minha adolescência. Me empertigava ante ao que eu chamava de imperativo do autodesenvolvimento. Sentia esse imperativo como uma força a impulsionar a vida para níveis mais complexos de organização. Perceber tal impulso me trazia uma imensa culpa, uma vez que eu mal havia iniciado meu labor e já arriscava planos de aposentadoria. Alimentava uma ideia de quietude e contemplação alicerçadas pela lei do mínimo esforço.


A frase A Obra é maior que a vida se uniu, em mim, com outra frase que me é muito cara: Torna-te quem Tu és, bela frase retirada do livro Ecce Homo. Nietzsche não a diz no sentido essencialista, mas no sentido do esforço e do eterno lapidar da vontade (GHIRALDELLI, 2017). É no caminho de se tornar quem se é que a Obra é construída. O self, tecelão de caminhos, parece não tolerar que se ignore as demandas internas de autorrealização. É por isso que a Obra é maior que a vida: o desviar-se para um caminho de esterilidade e unilateralidade artificiais geram um quadro de sintomas cujo telos leva o sujeito a uma paralisação e angústia e, se contar com a bênção da deusa Tique, a um posterior escrutínio da própria existência. O sofrimento e a dor vergam a mais rígida estrutura e, caso haja o desejo de que a vida flua e o represamento libidinal cesse, é preciso curvar-se sobre o problema, realizando o sentido essencial e etimológico da palavra reflexão:

O termo latino reflexio significa um curvar-se, inclinar-se para trás, e usado psicologicamente indicaria o fato de o processo reflexivo que canaliza o estímulo para dentro da corrente instintiva ser interrompido pelo psiquificação. Devido à interferência da reflexão, os processos psíquicos exercem uma atração sobre o impulso a agir, produzido pelo estímulo; por isso o estímulo é desviado para uma atividade endopsíquica, antes de descarregar-se no mundo exterior. A reflexio é um voltar-se para dentro, tendo resultado que, em vez de uma reação instintiva, surja uma sucessão de conteúdo ou estados, que podemos chamar reflexão ou consideração. Assim a compulsividade é substituída por uma certa liberdade, e a previsibilidade por uma relativa imprevisibilidade. (JUNG, 1984, VOL 8\2, par. 241)
Nesse ponto da vida em que tudo carece de sentido o inacabamento da natureza obriga aquele que luta para não ser devorado pelo seu próprio enigma a se munir com o cinzel da arte e reconstruir o seu sentido de vida. Há no ser humano “o sentimento íntimo do que deveria ser e do que pode ser. Desviar-se de tal pressentimento significa extravio, erro e doença” (JUNG, 1979, par. 311). Quando se adentra a noite escura da alma o coração já está em chamas; não é mero capricho ouvi-lo, mas pura intuição de que neste ato de escuta e entrega pode residir a salvação. Aqui confirmamos a asserção aristotélica que compreende o ser humano comouma criatura que não busca simplesmente o prazer, mas antes de tudo fugirda dor.

Quando a alegria abandona os quadros rotineiros da existência e o corpo executa um concerto cujo sentido lhe escapa, temos sinais de que a energia psíquica se recolheu do mundo externo, obrigando aquele que padece a realizar a sua catábase. De seu sucesso depende sua vida e todo o sentido que ela pode conter. Àqueles que se paralisam, crispados e perdidos diante das encruzilhadas da existência, dedicamos os seguintes versos de São João da Cruz:
Onde é que te escondeste,
Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste,
Havendo-me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras já ido.
Pastores que subirdes
Além, pelas malhadas, ao Outeiro,
Se, porventura, virdes
Aquele a quem mais quero,
Dizei-lhe que adoeço, peno e morro.
Buscando meus amores,
Irei por estes montes e ribeiras;
Não colherei as flores,
Nem temerei as feras,
E passarei os fortes e fronteiras

(CÂNTICO ESPIRITUAL I, CANÇÕES ENTRE A ALMA E O ESPOSO. SÃO JOÃO

DA CRUZ, 2016)
Quando o processo de adaptação falha, na mesma medida em que o mundo externo perde a sua força o mundo interno se agita com a carga de energia recebida:
Se nos recordarmos agora de que a causa do represamento da libido era o malogro da atitude consciente, compreenderemos que germes valiosos são ativados pela regressão: eles contêm, com efeito, os elementos necessários para aquela outra função excluída pela atitude consciente e que estaria capacitada para complementar ou substituir eficazmente a atitude consciente que não produz resultado” (JUNG, 1984, VOL 8, par. 65)
A tendência é que essa energia introjetada alimente fantasias de caráter infantil, que provavelmente revelarão germes de comportamentos que contribuíram para o fracasso adaptativo. A regressão da energia psíquica proporciona uma oportunidade de compreensão das dificuldades que fizeram a libido refluir ou, pelo menos, seria bom se isso fosse possível. No recuo da libido que caracteriza a regressão há a oportunidade de se reunir forças para transpor um obstáculo. Esse acréscimo de energia investido na resolução de problemas é produto da compreensão e dissolução de determinados complexos. É importante lembrar que a força de vontade é antes de mais nada um excedente energético. Esta é uma descrição ideal da dinâmica libidinal: a energia psíquica regride e posteriormente progride em uma adaptação mais adequada às demandas externas e internas. Segundo Jung: 

Ao ativar um fator inconsciente, a regressão confronta a consciência com o problema da psique, diferente do problema da adaptação exterior. É natural que a consciência resista em aceitar os conteúdos regressivos, embora seja, afinal, obrigada a se submeter aos valores regressivos, por ser impossível a progressão, ou, dito em outros termos: a regressão conduz à necessidade de adaptação à alma, à adaptação ao mundo interior da psique. (JUNG, 1984, VOL 8, par. 66)
É natural que ao se deparar com dificuldades adaptativas haja a tendência de um retorno a um estado de menor desamparo, à segurança materna. Jung diz que
 “causalmente a regressão é condicionada pela “fixação na mãe”, p. exemplo. Finalisticamente, entretanto, é a libido que regride à imago da mãe, para aí descobrir as associações da memória através das quais a evolução pode passar de um sistema sexual, p.exemplo, para um sistema espiritual” (JUNG, 1984, VOL 8, par. 44). A libido que retorna à imagem da mãe não visa satisfazer pulsões eróticas, mas buscar um renascimento espiritual, ou, em outras palavras, a transformação da personalidade. É por isso que é dito: o primeiro batismo se faz com sangue e o segundo é feito através da água. Analisada psicologicamente, a frase do evangelho de João se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de
Deus – se harmoniza com essa compreensão da dinâmica da energia psíquica conforme descrita aqui. Ainda sobre a regressão:
Quando Jonas foi engolido pela baleia, ele não estava simplesmente preso dentro do ventre do monstro, mas, como diz PARACELSO, viu ali “enormes mistérios”. (...) Nas trevas do inconsciente está escondido um tesouro, justamente a “preciosidade difícil de ser alcançada”, que em nosso texto, como em muitas outras ocasiões, é caracterizado como pérola, ou como “mistério” em PARACELSO, o que significa um fascinosum par excellence. Estas possibilidades de uma vida e um caminhar “espirituais” ou “simbólicos” constituem o alvo final, mas inconsciente, da regressão. Para que a libido em regressão não fique presa na materialidade materna (na mãe corporal) os símbolos acodem como expressão, ponte e indicação. O dilema por certo nunca foi formulado mais claramente do que no diálogo de Nicodemos: de um lado, a impossibilidade de penetrar no ventre materno, de outro lado, o renascimento a partir de “água e do espírito”. O herói é herói porque em qualquer dificuldade da vida vê a resistência contra a meta proibida e luta contra esta resistência com toda a nostalgia que aspira pela preciosidade difícil ou inalcançável; uma nostalgia que paralisa e mata o homem comum. (JUNG, 1986, VOL 5, par. 509 e 510)

Há, notoriamente, muitos riscos inerentes a esse movimento da libido. Por exemplo, há o risco de que o indivíduo fique na situação mais tempo do que seria ideal: o risco de sucumbir à nostalgia. Talvez seja nesse sucumbir à nostalgia que o conceito de regressão junguiano se assemelhe à noção negativa da regressão conforme vista pela psicanálise em seus primórdios, pois hoje esta já compreende que a regressão pode estar à serviço do desenvolvimento egóico (SAMUELS, 1989). É importante lembrar que a descrição ideal da dinâmica libidinal funciona como um indicador de uma direção, e nunca deve ser confundido com o possível ou com o necessário para uma determinada pessoa em um dado contexto. É certo que a alma precisa de tempo, mas também é certo que o mundo externo não arrefece sua pressão e exige uma resposta:

Se o mundo exterior não passa de um fantasma, para que o esforço de estabelecer um complicado sistema de relação e adaptação a ele? Paralelamente, considerando-se as realidades interiores “mera fantasia”, ninguém reconhecerá nas manifestações da anima outra coisa além de tolices e fraquezas. Mas se for reconhecido o fato de que o mundo está fora e dentro, e que portanto, a realidade vem tanto do interior como do exterior, logicamente dever-se-á considerar os transtornos e inconvenientes que surgem do íntimo como os sintomas de uma adaptação defeituosa às condições do mundo interior. (JUNG, 1978, VOL 7/2, par. 319)

Uma conciliação adequada entre as demandas internas e externas resulta em uma atitude adequada diante da vida. É essa atitude que proporciona um novo redirecionamento da libido. Enquanto essa conciliação não é possível o trabalho interior continua. Nessa etapa é esperado que o indivíduo entre em contato de uma forma mais consciente com os seus conflitos e de sua participação em sua gênese. O resultado desse trabalho é a compreensão de que habita no próprio indivíduo aspectos de sua personalidade tão dissociados que parecem se comportar como entidades à parte, e que estas procuram se fazer ouvir (no mais das vezes esse encontro se inicia através da formação de sintomas). O ato de deixar falar essas partes antes desconhecidas, o que só pode ser possível a partir de um posicionamento honesto do Eu neste diálogo, revela que dentro do ser humano há caminhos e atitudes antagônicas, vidas vividas e vidas não vividas que são aparentemente irreconciliáveis. Dessa tensão gerada pelo foco consciente sobre essas questões pode surgir uma ideia conciliadora, um símbolo cuja força atrativa pode mobilizar novamente a energia psíquica em uma nova direção. Esse símbolo reconciliador pode levar o sujeito a uma nova atitude diante da existência.
Espero que a partir das reflexões acima possamos ter uma ideia do bailado da libido diante da vida. Nesse arranjo singular que nunca deixa de surpreender por sua potência criativa. Essa dinâmica visa o alargamento da alma, pois, como ensina Guimarães Rosa, o rio não quer simplesmente chegar no mar, mas tornar-se mais largo e profundo. Gostaria de terminar esse texto da mesma forma como o começamos, com alguns versos de SãoJoão da Cruz. Na poesia inicial, retirada da primeira parte do Cântico Espiritual, percebemos o desamparo da alma; nesta poesia final, retirada da Noite Escura, o regozijo do encontro:

Canções da Alma
Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada, Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada, Oh! Ditosa ventura!
Na escuridão velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via, Nem eu olhava coisa.
Sem outra luz nem guia
Além dessa que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia




Oh! Noite que me guiaste,
Oh! Noite mais amável que a alvorada Oh! Noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava, Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava, Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto inclinado sobre o Amado; Tudo cessou. Deixei-me, Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado
Referências Bibliográficas
Jung, C. G. Símbolos da Transformação, Vol 5
----------- Vol 7\2
----------- Vol 8/2
GHIRALDELLI, 2017.Torna-te quem tués.http://ghiraldelli.pro.br/filosofia São João da Cruz
Obras completas Instituto Junguiano de Brasília Ensaio primeiro semestre de 2017