quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Processo de Individuação de Jenny Isaksson em Face a Face, o mais visceral dos filmes de Ingmar Bergman, o cineasta da alma humana. (Contém Spoilers)



Por:
Haroldo Michiles

Resumo: Este artigo pretende destacar um dos mais dramáticos personagens criados pela magia do cinema e pela cabeça do cineasta da alma humana (como é chamado o sueco Ingmar Bergman), a Dra. Jenny Isaksson, psiquiatra casada, que em meio a uma grave crise existencial, volta a casa em que viveu na infância com seus avós, e ao se sentir impossibilitada de conviver com suas visões e culpa assustadoras tenta o suicídio, revisitando os sonhos sua infância traumática e ao ver a morte face a face, passa, auxiliada por um terapeuta/amigo, por um processo catártico que a leva a se reorganizar internamente, indo do caos a um estágio que pode-se entender como o inicio de seu processo de individuação.

                                   Liv Ullmann e Bergman durante as filmagens de Face a Face.
Introdução
Face a Face, filme dos anos 70 do diretor sueco Ingmar Bergman, não é um filme qualquer. De todos os filmes desse extraordinário cineasta, talvez seja esse o mais visceral deles e, certamente, um dos poucos com um olhar tenuemente otimista, ao registrar a curva de vida da ambígua personagem central Jenny Isaksson, médica psiquiatra, que vai enfrentar a maior batalha interna que um ser humano pode ter: o confronto com seus traumas de criança (criada que foi pela avó autoritária em função da morte precoce dos pais), seus medos abissais da velhice e da morte, vivenciar o seu lado sombrio, e o embate com a gigantesca culpa que a persegue e que é materializada por uma velha senhora de negro, que sem uma palavra, a enfrenta olho no olho, desde uma das primeiras cenas, na casa dos avós. Culpa de que? Entre tantas, a de não ter atendido aos desmedidos anseios e expectativas desses avós que a criaram (e que não se importavam em trancá-la num armário escuro quando não atendia a essas cruéis expectativas). De, na infância, não ter se posicionado a favor do frágil pai alcoólatra que tanto amava, nos embates dele com a mãe e a já mencionada e arrogante avó, travestida de boa cuidadora. Culpa por não amar de fato sua filha adolescente. De trair o marido, de ter tido prazer numa tentativa de estupro, e mais...
Por circunstâncias profissionais, ela volta a casa desses avós para assumir temporariamente a direção de uma clínica, uma oportunidade única para o real confronto com o medo da morte e da velhice, e porque não, a partir de um ponto onde já não há mais retorno, se reorganizar internamente, se reinventar; dramática história essa, que poderá levá-la ao processo de individuação. Apesar de dizer que está sempre bem, ela deixa escapar que “quando se deixam as coisas como estão, elas ficam como estão”. E pouco a pouco os “esqueletos” de sua infância começam a sair do armário. Em grande parte do filme, Jenny e a figura quase onipresente da já citada senhora de negro que traduz a grande culpa da personagem, se medem num jogo de olhares (ameaçadores por parte da anciã) e de medo por parte do personagem central. Também, em uma das primeiras cenas, há imagens que ligam essa culpa ao desenho de um leão (não por acaso para Jung uma figura de poder), como também a imagem de uma flor de lótus, que nas diversas mitologias, representa o símbolo de transformação espiritual e metamorfose, desenho esse localizado num vitral pouco iluminado na escada dessa temível casa.
 Mas, o filme está apenas começando, e antes que a Dra. Isaksson (interpretada pela atriz sueca Liv Ullmann, que Bergman dizia ser seu stradivárius), se liberte desse sufocante casulo que é a sua angustiada vida (angustia essa metaforicamente também representada pela velha senhora e pela casa onde passou a sua infância), vai ter que ir vertiginosamente às profundezas de sua escuridão pessoal, passando por crises histéricas, depressivas e de insônia, que a levam a uma desesperada tentativa de suicídio, quando pelos sonhos (que são de grande importância neste filme), passa por um processo catártico de revisão e ressignificação de sua infância traumática, emergindo então com uma outra roupagem psíquica. Ao partir para o enfrentamento de seus temores, fantasmas, erros, sua sombra, e com a mão amiga de um médico (mix de amigo/namorado/ terapeuta), se reergue e sai em busca dessa coisa maior que rege todo ser humano, que é o Self e porque não, do seu processo de individuação.


Face a Face (capa)

A atriz Liv Ullmann (que Bergman dizia ser seu Stradivárius), no filme Face a Face pelo qual foi indicada ao Oscar em 1976.
 O fio condutor que antevê a sua crise pessoal e que a leva a já citada tentativa de suicídio, são seus sonhos, sempre eles... Vestida de vermelho, a criança que ela foi, percorre todos os espaços daquela aterradora casa, sem coragem de entrar no temido armário escuro (onde era trancada quando desobedecia a avó), o que de fato acontece no sonho final no leito do hospital, em que esse armário vira seu próprio caixão, com uma Jenny criança implorando aos gritos para não ser enterrada. Gritos esses em vão, pois pregos e martelo vedam seu esquife. Logo ela própria já adulta, ateia fogo ao seu ataúde, queimando o corpo da criança que ela foi. Fogo esse que não por acaso, também simboliza transformação, metamorfose e renascimento na alquimia, como também na velha lenda da Fênix, a águia que incendiada, renasce das cinzas.
Sobre esse lugar escuro, diz Jung na obra “Seminários sobre Sonhos de Crianças (p.104), que para todas as crianças o porão negro é um lugar sinistro. A consciência é frequentemente representada a partir da casa, e o porão é aquele lugar escuro onde perdemos a consciência, o lugar onde acontecem as coisas que mais tememos, aquilo que não conhecemos. A escuridão seria o lugar onde nos sentimos sozinhos, de onde vêm os sonhos ruins, onde o perigo nos ronda e, na fantasia de uma criança, esse espaço é onde acontecem fatos obscuros e misteriosos. A analogia entre o porão e o armário escuro onde Jenny foi trancada é clara.
Sobre o objetivo dos sonhos, diz ainda Jung na obra acima citada (p.18), que “o sonho representa a reação inconsciente frente à situação consciente. Uma determinada situação consciente é seguida por uma reação do inconsciente na forma de um sonho, trazendo conteúdos que - de modo complementar ou compensatório - apontam claramente para a impressão que se obteve durante o dia. Diz ainda que os sonhos representam uma determinada situação, que certamente é fruto do conflito entre consciência e inconsciência, em que essa inconsciência tem como objetivo modificar uma atitude consciente.

Face to Face (Face a Face)


Após o caos, a tempestade e a noite negra, Jenny volta talvez pela última vez àquela casa, encontra os avós frágeis e no embate final com a morte próxima, e agora, com aparente serenidade desce aquela mesma escada do inicio do filme na qual a velha senhora de negro (que como já dito representa a culpa), já não está mais lá. Apenas o vitral com a flor de lótus já aparece iluminado pela luz de um novo dia. Depois da desordem, talvez ela esteja pronta para essa odisseia que é a segunda metade da vida. E o que é a segunda metade da vida parar Jung senão o processo de individuação, de encontro com o Self?
Como diz Connie Zwig no artigo “O Feminino Consciente: Nascimento de um Novo Arquétipo,“ que integra a obra Espelhos do Self, “as mulheres são feitas, não nascem prontas. Sem terem atravessado as labaredas da individuação, algumas permanecem meninas. Despreocupadas e talvez descuidadas, ficam ainda atadas a seus ideais da infância, à promessa da perfeição, ao sonho do potencial humano sem limites. Ficam boiando na superfície, sem contato com as profundezas, repletas de sorrisos otimistas mas, incapazes de suportar o peso da responsabilidade, as tensões do compromisso, a sóbria realidade da idade adulta”.
Vale destacar que o universo Bergmaniano em toda a sua obra, é caracterizado por personagens que vivem dramas existenciais complexos e quase sempre, emocionalmente analfabetos. Jenny, numa das cenas se questiona “será que ficarei aleijada emocionalmente a vida toda”? Ingmar Bergman é de fato um cineasta com temática universal, construtor que é de personagens atemporais, que traduzem à perfeição a natureza humana e seus muitos matizes. Como Jung, ele também é europeu, filho de pastor luterano, e teve uma educação autoritária e rigorosa por parte dos pais. Jung nasceu no século XIX, ele na segunda década do Século XX. Ambos trazem em suas obras a fragilidade humana e a necessidade da presença acolhedora do outro.
Ligar a Dra. Jenny Isaksson, a personagem central do filme Face a Face (psiquiatra na faixa dos 35/40 anos, uma filha adolescente com um casamento e carreiras a principio consistentes) ao processo de individuação do ser humano, que é uma tarefa repleta de dificuldades que nem todos conseguem trilhar”, como diz Jung, não é empreitada das mais simples. Sim, falar desse percurso que é a individuação  é sabidamente complexo e mais, enxergar esse passo a passo num personagem editado pelo cinema em menos de duas horas, não é de fato tão simples, mesmo nos complexos, ambíguos e imprevisíveis personagens de Bergman, o cineasta da alma humana como é constantemente definido.
Jenny, após tantos sonhos, alucinações e crises de angustia e depressão, começa a admitir a si mesma e ao Dr.Tomas Jacobi (médico psiquiatra, amigo e terapeuta), que é infiel, que não tem grande afinidade com o marido e a filha, Mais, diz a ele gostaria  que a tentativa de estupro da qual foi vitima,  tivesse de fato  se concretizado,  que tem verdadeiro horror ao cheiro da velhice e  que se sente culpada por não ter correspondido a tantas e tantas expectativas. Aos  poucos vai sendo tomada pelo seu lado mais sombrio, vai ao fundo do poço e tenta o suicídio.
Após ser salva pelo médico/amigo, traz simbolicamente em sonhos todo o seu passado assustador, e numa cena antológica, faz um processo catártico em que interpreta com todas as nuances, não só a criança que foi, como a despótica avó e todas as suas cobranças e ameaças. Nesse ponto, a criança do passado é tomada pelo medo, vai às profundezas do Hades, e então pouco a pouco se reconcilia com o passado, e vai em busca do pote de ouro do arco-íris psíquico, que é o encontro com o Self, esse constructo teórico misterioso e intangível, que imprime sua totalidade em nossa vida psicológica, conforme vamos nos desenvolvendo, e que é algo que vai além do ego que nos rege, e vai muito, mas muito além do eu.
 Render-se ao Self, só se torna realidade quando interagimos com as diversas forças internas, nos reconhecemos e nos apropriamos delas, e conferimos a ele, o Self, a oportunidade de se encarnar na nossa existência. Talvez seja mais fácil reconhecê-lo nos momentos de dor e de sofrimento, desde que se enxergue nesse sofrimento uma razão maior, uma lição para a vida. O Self se apresenta como a imagem do divino, participando das qualidades de uma meta transcendente, constituindo-se dessa forma como um alvo móvel em cuja direção nos encaminhamos para nos individuar.



Face a Face (Serie de TV Sueca)
Desenvolvimento
Trazendo Jung para esse contexto, vale destacar que Nise da Silveira diz em “Vida e Obra de Jung” que para ele, o passo a passo do processo de individuação exige a integração de diversos elementos, tais como a sombra, animus/anima, desfazer projeções, bem como desvestir as diversas personas, ampliar a consciência, e também desenvolver suas potencialidades, processo esse que se constitui no principal eixo da sua psicologia. Diz mais: “para que se tome de fato consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos”.
Todo ser tende a realizar o que existe nele em germe, a crescer, a completar-se. Esse caminho funciona na natureza e também vale para o homem, quanto ao corpo ou a psique. No humano, o desenvolvimento de suas potencialidades é impulsionado por forças instintivas inconscientes. Nós não somente somos capazes de tomar consciência desse desenvolvimento, como também, temos a capacidade de influenciá-lo. Essa ação contínua é o que se chama de processo de individuação, e não é um percurso fácil nem linear. Trata-se sim, de um movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico, o si mesmo ou Self. Quando o consciente e o inconsciente vêm ordenar-se em torno dele, a personalidade completa-se, sendo ele o centro da psique, como o ego é o centro do campo do consciente.
O conceito (diferentemente do processo) de individuação de Jung é claro: trata-se da tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas, mas não é de maneira alguma chegar a um patamar de perfeição e sim, a um estado de completude. O que seria então completar-se ou completude? Seria uma espécie de administração do fardo de conviver conscientemente com tendências opostas e até irreconciliáveis, mas inerentes à natureza humana, sejam escuras ou claras, sem conotações rígidas de bem ou mal. Para a personagem de Face a Face, médica respeitada e a principio bem casada, essa contradição é explicitada diversas vezes, mas vale destacar a maneira cruel como se refere à velhice e aos velhos, seu mais que “burocrático” desempenho como mãe e esposa, e sua vontade de que o estupro do qual quase foi vitima, tivesse de fato acontecido, e mais, o prazer que sentiu naquele momento.


Liv Ullmann em Face a Face.
Mas é bom destacar que não podemos confundir individuação com individualismo. O individualismo está ligado à realização das particularidades de sua natureza. Já o processo de individuação traz a ideia de se considerar componentes coletivos da psique humana (conteúdos do inconsciente coletivo), o que ao contrario da individualidade, traz como consequência positiva, um melhor funcionamento do homem dentro da coletividade, o que certamente não fomenta, como já dito, sentimentos orgulhosos e privilégios individualistas.
Todo esse processo passa por uma condição absolutamente vital, que é a de nos voltarmos para o nosso corpo que é a nossa terra, para que dentro desse corpo possamos então sintonizar a nossa singularidade e peculiaridade. Caso contrário, ficaremos flanando nas correntezas da vida. Outra condição para que a individuação ocorra, é o registro por parte de outros, pois só quando é percebida e registrada ela se materializa.
DeBus, autor do artigo “O Self é um Alvo Móvel: O Arquétipo da Individuação”, em outro dos artigos que compõem a obra Espelhos do Self, organizada por Christine Downing, traz ainda uma outra definição para o termo Self, “como um substrato inconsciente, cujo verdadeiro expoente na consciência é o ego, que está para o Self como o que se move está para aquilo que o desloca, como o objeto está para o sujeito, porque os fatores determinantes que provém do Self cercam esse ego por todos os lados e, portanto, lhes são sobre ordenados” (pg.38). “Não sou eu que me crio, mas, sim, eu aconteço a mim mesmo”. Ainda no mesmo artigo, o autor diz que para Jung, o ego é um dos muitos complexos no qual ocorrem sentimentos e pensamentos, e retém uma ilusão que dá origem a sentimentos e pensamentos. É apenas uma mera ilusão, uma vez que o Self vem destroná-lo durante o processo de individuação, que como a própria palavra insinua, traz a ideia de que é chegar a um acordo com a nossa própria natureza. É se ouvir, se escutar...
 Esse caminho para a individuação vai aos poucos desafiando o ego a mover-se numa direção desconhecida, em lugar de permanecer prisioneiro dos hábitos e movimentos familiares desconstruindo assim nossa identidade costumeira. O personagem de Bergman sai da situação de quase imobilidade, auxiliada pelo amigo/terapeuta, e vai para uma posição ou lugar que ainda não tinha ido antes, a de questionadora de valores pessoais, de se mostrar de fato como é, uma mãe que não tinha dado de fato afeto à filha, preconceituosa com a velhice, uma profissional quase burocrática, “sem conseguir dar as palavras certas aos pacientes”, como ela diz, e infiel ao marido. Se a angustia é a fala entupida, ao explicitar seus reais sentimentos, Jenny está no caminho certo.
Como já citado, uma vida pessoal na qual o Self não atua, corre o risco de ficar estagnada. Ele vai então nos desafiar com a perspectiva da individuação, quando geralmente em determinada fase da segunda metade da vida, começamos a ter uma sensação de desconforto. É um processo que exige uma ampliação ou alargamento do que chamamos de personalidade.
 No curso dessa individuação, nossa vida passa então a ser “governada” por um centro de gravidade e organização, que inclui as realidades transpessoal e inconsciente. Mesmo quando o Self se estabelece e toma conta, seu modo de governar nossa vida pessoal vai se modificando à medida que avançamos esse mais que delicado processo de individuação, fato que pode ser verificado pela maneira como praticamos o poder nas nossas relações, ou seja, pela influencia desse Self, vamos abandonando ou mesmo modificando nossas projeções em nome do amadurecimento.
Aos poucos, nos harmonizamos com a natureza do cosmo na medida correta. Ele, o Self, age por trás dos nossos anseios de relação, levando a uma hegemonia que implica no sacrifício de tudo aquilo que pensávamos ser. Move-se da periferia da nossa vida psicológica em direção ao seu centro. Para a maioria das pessoas o Self começa a exercer seu efeito de centração, de individuação, tanto nos planos consciente como inconsciente, lá pelo meio da vida, como citado anteriormente.
A dor e o perigo inerentes ao processo de individuação se tornam absolutamente necessários. Com base em imagens de sonhos, imagens de contos de fadas, mitos e opus alquímico e em outras produções do inconsciente e em observações pessoais e de seus clientes Jung citado por Nise da Silveira na obra (Jung Vida e Obra), destaca as principais etapas do processo de individuação. O menos complexo deles talvez seja o reconhecimento e o processo de desnudar-se ou mesmo, de desvestir as inúmeras personas que se adquire ao longo da vida. Não é desfazer é desvestir. É claro que as personas são muito uteis no sentido de estar devidamente ajustado as convenções coletivas, a ação de apresentar-se mais como os outros desejam e menos, bem menos, de como se é de verdade. “Eu sei que devo fazer sempre o que você manda, porque tenho sempre a consciência pesada. Eu sei que fiz tudo errado, desculpas. Sou a menininha da vovó, a queridinha da vovó, com ela estou sempre protegida” diz a menina que foi Jenny a avó em um dos seus reveladores sonhos...
O termo persona vem do grego. Eram mascaras que os atores usavam, para representar seu papel. Pode sim representar um sistema útil de defesa, mas o perigo é o de o ego consciente se identificar excessivamente com essa “defesa”, fazendo com que o individuo fusione-se com a sua persona, não tendo mais capacidade racional de separar-se ou mesmo desvestir-se dessa “casca”. Quando a mascara usada nas relações é retirada, aparece então uma face desconhecida, que traz a tona componentes também desconhecidos que formam um aspecto pessoal escuro e ignorado, que nos assusta e do qual fugimos, a nossa sombra.
Tal sombra psicológica faz parte da nossa personalidade, contendo elementos que não aceitamos em nós, que reprimimos e por isso mesmo, projetamos no outro, seja nosso parceiro, no vizinho, ou mesmo uma figura símbolo que demonizamos.
Se não entramos no quarto escuro, não sabemos de fato o que tem lá dentro. Lançar luz sobre esse quarto escuro pode ser libertador, pode ampliar a nossa consciência, e é exatamente isso que Jenny Isaksson faz quase trinta anos depois ao entrar em sonho naquele armário escuro que tanto temia. Aí nem sempre é o outro que está errado, descobrimos uma trave no nosso próprio olho. Nos sonhos, a sombra é personificada por atores coadjuvantes, julgados sem expressão, mas num processo analítico conduzido com seriedade, devem de fato ser considerados e ampliados seja por elementos da mitologia ou da alquimia. A sombra é uma massa espessa, de componentes aglomerados de pequenas fraquezas, aspectos considerados inferiores pelo contexto social, por emoções imaturas, complexos reprimidos e forças genuinamente maléficas. Mas existem também nessa massa espessa, traços positivos, qualidades valiosas que não se desenvolveram devido a condições contextuais e externas desfavoráveis naquele momento e, também por não termos consciência da nossa sombra e por ser tão difícil para nós penetrá-la.
Depois de travar conhecimento com a própria sombra, outra tarefa mais complexa se apresenta, reconhecer a anima e o animus. Anima seria a porção feminina inconsciente no homem, definida por Jung como “a representação psíquica da minoria de gens femininos presentes no corpo do homem”. Essa feminilidade inconsciente, indiferenciada, inferior, manifesta-se no dia a dia por despropositadas mudança de humor ou mesmo caprichos. Compõem também a anima, as experiências fundamentais que o homem teve com a mulher através dos milênios.








Face to Face 1976

Jenny Isaksson no hospital,  após a tentativa de suicídio.
Basta destacar que o primeiro receptáculo da anima é a mãe, que faz dela aos olhos do filho, um ser mágico. Depois essa anima se transfere para as estrelas da musica, cinema e de forma particular para a mulher com a qual o homem vai se relacionar amorosamente, provocando os complicados enredamentos do amor e das decepções causadas pela impossibilidade do objeto real corresponder plenamente à imagem oriunda do inconsciente, transferência essa que nem sempre se processa de modo satisfatório. Se a retirada da imagem da anima no primeiro receptáculo não se constituir de forma adequada, também não será constituída de forma adequada na figura da esposa e amante.
Na primeira metade da vida a anima projeta-se de preferência no exterior, sobre seres reais, estando presente na problemática do amor, ilusões e ambém das desilusões. Já na segunda metade da vida, o jogo dessas projeções vai se esgotando, e a mulher reprimida dentro do homem vai assumindo a função de trazer a ele leveza, fragilidade, gentileza e sensibilidade. O homem forte preso no constructo do masculino, que nunca se fragiliza, estará sempre amuado. A anima torna-se função psicológica da mais alta importância, porque faz uma ponte na relação com o mundo interior, na qualidade de intermediária entre o consciente e o inconsciente e função de relacionamento exterior, na qualidade de sentimento conscientemente aceito.
Neste artigo é importante abordar mais detalhadamente o ânimus, que também é a masculinidade existente no psiquismo da mulher. Essa masculinidade também é inconsciente e manifesta-se de modo ordinário, como intelectualidade mal diferenciada e simplista. Com frequência vemos mulheres sustentarem afirmações e pontos de vista que não resistem a qualquer exame lógico, mas são defendidas teimosamente e acirradamente. O animus opõem-se à própria essência da natureza feminina, que busca antes de tudo, um relacionamento afetivo. Sua hipertrofia resultará em um humor aguerrido, querelante.
O animus condensa as experiências que a mulher vivenciou nos encontros com o homem no curso de milênios, e a partir desse imenso material inconsciente, ela modela ou mesmo idealiza a imagem do homem que procura. Por analogia a anima, o primeiro receptáculo do animus será o pai, transferindo-se depois para o mestre, o ator, o esportista, projetando então sobre ele, uma imagem ideal, que não resiste à convivência e as comparações do cotidiano, e logo vêm as decepções. .
As relações entre o homem e a mulher acontecem nesse espaço quase fantasmagórico que é a interface entre anima e animus. O animus assume personificações de contos de fada, mitos e outras produções em formas de animais, monstros, demônios, príncipes, criminosos, heróis, feiticeiros e homens brutos.
O animus nos seus aspectos positivos tem funções importantes a realizar, como mediar o inconsciente e consciente, similar ao papel desempenhado pela anima no homem. Se integrado de forma adequada pelo consciente, dá a mulher a capacidade adequada de reflexão, autoconhecimento e gosto pelas coisas do espírito. Há alguns elementos no filme, que nos permitem afirmar que Jenny não desenvolveu de forma adequada seu animu. Os homens de sua vida são figuras indiferentes, ausentes ou frágeis, como o pai, o avô e até mesmo o marido.
Nos sonhos surgem então as primeiras figurações desse centro profundo da psique. Nos sonhos femininos, o Self revela-se em forma de figuras femininas superiores, das quais emana benevolência, tais como a sacerdotisa, a deusa mãe, a deusa do amor. Nos sonhos masculinos assume o aspecto do velho sábio, do mago ou mestre espiritual, do filosofo. Essas personificações são dotadas de grande potencial energético, causando ao sonhador uma impressão duradoura de maravilhamento.
Self não é só centro profundo, é a totalidade da psique. Repetindo o que já foi citado, o processo de individuação e o caminhar rumo ao Self, passam por uma série de requisitos já listados e também pelo sofrimento e pela dor. A personagem de Bergman enfrenta ao longo da vida uma pesada via crucis, onde não falta muita angústia, dor, inadequação aos papéis que dela exigiam (como o de mãe dedicada e amorosa), medo, ira e sofrimento, muito sofrimento.
Reconhecer e assimilar a própria sombra, enfrentar e dissolver complexos construídos ao longo da vida, exterminar ou pelo menos diminuir as projeções, são aspectos que aliados à descida às trevas abissais e ao confronto quase que apocalíptico entre o consciente e inconsciente, vão fatalmente ampliar o mundo interior, resultando numa nova personalidade não mais centrada apenas no ego. O centro dessa nova personalidade estabelece-se agora com o Self, essa força energética que englobará todo o sistema psíquico.
Que consequências terá essa nova personalidade na vida de um individuo? A totalização do ser, já não mais fragmentado interiormente. Não se reduzirá a um ego aprisionado dentro de estreitos limites. Os valores serão agora mais vastos, e os prazeres e sofrimentos serão vivenciados num nível mais alto de consciência, sem a maquiagem que um dia foi absolutamente necessária. Esse individuo torna-se então um ser completo, composto de inconsciente e consciente, que inclui aspectos claros, escuros, masculino, femininos, com a harmonização de aspectos antes opostos e irreconciliáveis. Aqueles que não se diferenciam, e uma significativa parte dos indivíduos não trilha essa odisseia, permanecem obscuramente envolvidos numa trama de projeções, confundem-se, fusionam-se com outros e são levados a agir em total desacordo consigo mesmo, vivenciando um permanente estado neurótico.

Bergman


Conclusão
Foram as experiências pessoais de Jung que o levaram a teorizar sobre o processo de individuação. Vivendo intensamente todas as fases, ele observou em algum momento, que o curso do desenvolvimento da personalidade de seus analisandos, seguia um roteiro parecido, progredindo em relação ao centro, a um núcleo energético que se revelava no intimo da psique, o Self. Na obra de sua maturidade “Resposta a Jó” (pg.111), diz que no processo de individuação, são tantos os elementos obscuros que vêm à luz, que a personalidade é como que radiografada, ao mesmo tempo que a consciência ganha em amplidão e percepção. Mais, fala que a “a confrontação entre a consciência e o inconsciente faz com que a luz brilhe nas trevas, e não somente seja compreendida pelas trevas, como também as compreenda”.
No artigo “Ser e não Ser: Eis a questão”, publicado no Jornal O Globo, o médico psicanalista Carlos Vieira diz que “compreendemos desde cedo que temos um corpo, uma mente, uma origem, pais, filogênese, mas isso não significa de modo automático, que temos ou adquirimos uma identidade própria” Para ele, “a vida começa num grito de socorro, numa ventania, numa angustia, como na busca de um alume que nos proteja da precariedade da nossa condição humana. Começa aqui a necessidade do outro para sobreviver. Se os nossos pais nos dão a vida, um nome e sobrenome, não nos dão a nossa personalidade. Se constituir é um processo próprio e permeado de angustia”. Em algum momento das nossas vidas, teremos que abdicar das ações que engendramos para sermos amados, e vamos em busca do risco, na procura do terreno até então desconhecido.
Ainda no mesmo artigo, Moraes diz que “Zorba o Grego, personagem daquele famoso filme,  afirma que “para ser livre é preciso ser louco”. Não aquela loucura insana, mas uma loucura criativa, emancipatória, ousada, que cria e nos faz ter uma identidade própria, sem ser o filho de alguém, o neto do fulano de tal, mantendo aqueles pactos perversos familiares que nos fazem obedientes por escutarmos desde cedo que teremos tudo o que desejarmos (desde que e só se) obedecermos às ordens e aos ideais e anseios quase sempre deles, daqueles que nos comandaram ou ainda comandam”. Diz mais, “não fomos consultados se concordávamos com tantas expectativas que não foram concebidas ou construídas por nós”. Felizmente muitos se libertam dessas imposições cruéis e buscam se constituir e se individuar com os riscos que essa nova posição traz, com o quantum de incerteza que esse movimento do salto sem rede requer...
Na singular obra do sueco Bergman, a Dra. Jenny Isaksson vai pouco a pouco fazendo um grande “acerto de contas” com seus algozes (que em ultima instancia são seus medos, fantasmas, sua sombra e a enorme culpa que carrega), se expõe visceralmente ao amigo/terapeuta, externa sua dor que explode e a leva à tentativa de suicídio, é possuída pelo medo da morte e pelo horror ao cheiro da velhice, pela revolta, pela dor, pela culpa e, numa catarse que quase a leva a morte, segue em busca de vivenciar o segundo ato do resto da sua vida, já mais consciente de suas fraquezas, mais inteirada de sua real e ambivalente natureza, conciliando opostos, ciente de que não tem o amor da filha nem a solidariedade do marido quase ausente. Só pode contar de fato com ela mesma no caminho de sua individuação. Renascida literalmente das cinzas no catártico sonho final, essa nova Jenny parte então para se tornar real, como diz, e para “acabar de viver o que lhe cabe, sua vida, para que não mais existam amores servis”, como fala a poesia O Amor, de Vladimir Maiakovski... log


Referências Bibliográficas
SILVEIRA, Nise. Jung Vida e Obra. 22ª reimpressão. Editora Paz e Terra, 2011.
HTTP://oglobo.com.br/pais/moreno/posts/2012/08/08ser-não-ser-eis-questão-
459132.asp.Psicanálise da Vida Cotidiana (Ser e não ser eis a questão).
DOWNING, Christine (org.).As Imagens Arquetípicas que Moldam sua Vida.Editora Cultrix-São Paulo1991.
JUNG,Carl Gustav.Resposta a Jó. 7 ed. – Ed.Petrópolis, Vozes, 2008.
JUNG, Carl Gustav. Semibários sobre sonhos de crianças: sobre o método de interpretação dos sonhos;interpretação psicológica de sonhos de crianças. Ed.Vozes,,2011
BERGMAN, Ingmar. Face a Face. Filme. 1976. Suécia.
MAIAKOVSKI, Vladimir.VELOSO, Caetano. O Amor, 1981

(*) O autor é psicólogo com especialização pelo Instituto Junguiano de Brasília, e aluno da Primeira Turma de Formação de Analistas do IJBsB.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

13 Reasons Why - Netflix - Os 13 porquês e um para quê: um olhar junguiano sobre suicídio e alma. (Contem Spoilers)

INSTITUTO JUNGUIANO DE BRASÍLIA - IJBSB












Análise da série “13 Reasons Why”, da Netflix (2017), produzida por Selena Gomez e Tom

McCarthy.


Por: Roque Tadeu Gui
https://www.facebook.com/roquetadeu.gui


 
Trailer
 
A série, lançada pela Netflix este ano, foi recebida nos EEUU com reservas e críticas controversas. O The Guardian e o The Washington Post fizeram críticas desfavoráveis. No Brasil, o mesmo se deu, seja quanto à duração dos capítulos, seja pelo ritmo narrativo, e, principalmente, por causa da apresentação de cena do suicídio de uma jovem de 17 anos.
Não obstante, a série é um sucesso de público (supõe-se que seja um público constituído sobretudo de jovens) e alcançou seu objetivo: levar milhões de adolescentes a assistirem o drama vivido por um grupo de adolescentes numa escola americana, curiosamente chamada Liberty (“Liberdade"), e envolvidos com o suicídio de Hanna.
Os produtores, diretores e roteiristas tiveram que enfrentar a controvérsia em torno da cena em que Hanna se suicida, cortando os pulsos, numa banheira, uma vez que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a não divulgação de cenas de suicídio,a fim de não estimular tentativas de auto extermínio.
Segundo informação obtida no site “Adoro Cinema”, a Nova Zelândia, país integrante da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que tem a mais elevada taxa de suicídios de jovens (dois adolescentes por semana), restringiu a exibição da série para maiores de 18 anos, permitindo aos menores de 16 e 17 anos somente quando acompanhados pelos pais.
O simples fato de ser uma série de grande audiência por parte de um público jovem demonstra que o tema é crítico e que os jovens desejam falar a respeito. Quanto ao temor de que a série, ao explicitar a cena de suicídio, possa contribuir para novos casos, temos o efeito positivo de que o volume de ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV) aumentou significantemente após a veiculação da série, com pessoas que ligaram declarando se identificar com o sofrimento de Hanna.


Hanna (Katherine Langford)

Uma breve sinopse: Uma caixa de sapatos é enviada para o jovem Clay (Dylan Minnette) por Hannah (Katherine Langford), sua amiga de escola e de trabalho. Clay está secretamente apaixonado por Hanna. O jovem se surpreende ao constatar o remetente, pois Hannah acabara de se suicidar. Dentro da caixa, há várias fitas cassete, onde
a jovem lista os 13 motivos que a levaram a interromper sua vida, com instruções para que elas fossem passadas entre os demais envolvidos.

O que a Psicologia Analítica tem a dizer sobre um fenômeno cultural representado pela grande audiência desse série televisiva, abordando o tema do suicídio de uma jovem?
Certamente a Psicologia poderá endossar todos, ou nenhum, dos porquês expostos na série. As explicações psicológicas imediatas remetem a sentimentos de traição por parte de amigos, sentimento de solidão, falta de solidariedade entre jovens que estudam numa mesma escola, insegurança pessoal típica da adolescência, baixa autoestima, falta de esperança, assédio psicológico e sexual, culminando com a agressão do estupro. Razões que, sobretudo quando agrupadas, como induz o roteiro da série, ”explicariam" o ato de auto extermínio.
Mas, talvez seja interessante, mudarmos a perspectiva de análise. Poderíamos perguntar “para quê a alma conduz alguém ao suicídio”. Sim, porque, a despeito de todas as influências coercitivas sofridas por Hanna, algo nela decidiu pela morte. E isso é mais difícil de compreender porque é mais fácil nos refugiarmos nas possíveis causas psicopatológicas ou sociais de um ato considerado insano.
A questão do suicídio acompanha os seres humanos e a própria civilização. Temos suicídios por diferentes “motivações”: os chamados suicídios patológicos, movidos por profunda depressão, os suicídios produzidos pelo pânico, os altruístas, os religiosos, os políticos, e por aí vai.
O que um psicólogo pode afirmar é que o suicídio é uma possibilidade humana. A morte pode ser “escolhida", a despeito do conjunto de razões a que chamamos “causas” do
suicídio. O significado dessa escolha varia de pessoa para pessoa e segundo a circunstância. Importa procurar compreender o desejo da alma pela morte.
Citando um eminente analista junguiano falecido ano passado (e não foi por suicídio; digo isso porque, afinal, o suicídio não é desconhecido dos analistas, lembro-me aqui do psicanalista Bruno Bettelheim [1903-1990], por exemplo). Esse analista junguiano, chamado James Hillman, escreveu um profundo livro, o mais expressivo que conheço, “Suicídio e Alma”. Nesse livro, Hillman diz: "Quando a morte é encarada do ponto de vista exterior, que lugar resta para a alma individual e sua experiência de morte? Qual seu significado? O que aconteceu à tragédia e onde se encontra a ferroada da morte? (Hillman, 1964/1993, p. 53).
Suicídio e Alma (James Hilman)

Hillman diz ainda: "Apenas Jung, dentre os grandes psicólogos, recusou-se a classificar as pessoas em grupos de acordo com seus sofrimentos.” E, ainda: "A primeira coisa que um paciente quer de um analista é torná-lo consciente de seu sofrimento e atraí-lo para seu mundo de experiência. A experiência e o sofrimento são termos de há muito associados à alma." (p. 55; os itálicos são meus).
Assim, importa conhecer intimamente o sofrimento daquele que decide pelo próprio fim. Voltemos à nossa série e ao enfoque que gostaria de dar a esta comunicação.
O verdadeiro protagonista da série é Clay Jehnsen, o jovem apaixonado por Hanna, e que acompanha a sua saga em direção à morte, por meio das fitas gravadas e deixadas por Hanna. Se vocês acharem estranha essa afirmação, convido-os a considera como "verdadeiro protagonista" aquele personagem que passou pelas mais significativas transformações ao longo do drama. Aprendi isso com outro psicólogo analítico, Terence Dawson (1997/2002), crítico literário de viés junguiano, cuja perspectiva adoto igualmente para a análise de filmes. Na dúvida sobre quem é o protagonista central de um drama, veja quem foi o personagem mais afetado e transformado psicologicamente ao longo da história.

Poderíamos dizer que Hanna foi quem mais se transformou (afinal terminou por morrer), mas prefiro pensar que a morte de Hanna tem a ver com o desejo profundo de transformação (aquilo que ela palidamente manifesta no início de um período escolar, ao cortar o cabelo e dispor-se a se enturmar, estratégia que acabou não sendo bem sucedida). Um "para quê" da morte já está aqui: a alma deseja transformar-se em busca da liberdade, libertar-se de situações opressivas, asfixiantes para a existência). A escolha da morte talvez seja o derradeiro gesto de afirmação dessa liberdade. Mas Hanna se foi, e Clay permaneceu seguindo a via crucis de Hanna. Escolhi olhar para Clay porque ele exemplifica a situação existencial dos que permanecem, sobrevivem e são profundamente afetados pela morte de alguém querido.
Clay não consegue fazer uma “maratona" para ver as fitas (hábito típico dos adolescentese dos adultos também, o nosso mais novo vício!). Não, rapaz sensível que é, sente-se incapaz de suportar as revelações de Hanna. É necessário passar as fitas uma por uma e acompanhar intimamente o sofrimento da amiga. Passar rapidamente pelas fitas seria indicativo de que estaria apenas tomando conhecimento dos fatos e não vivenciando a dor de Hanna sobre cada um dos acontecimentos. Aqui a alma revela outro de seus propósitos: o suicídio coloca em questão a possibilidade da morte e, portanto, o significado da vida.
Clay, na estrutura narrativa, é o herói, que deve atravessar o vale das sombras, vencendo etapas e transformando-se a cada etapa. Isto é clássico. Hanna pode ser vista como a figura que propicia essa jornada, uma Ariadne ou Beatriz. Sua trajetória assemelha-se à via crucis de Jesus, para usar uma metáfora cristã, e sua mortificação serve a um propósito que vai para além do fato objetivo, o da morte de uma jovem inteligente, sensível e bela, diante das experiências dolorosas da vida.
Clay, ele também um jovem de 17 anos, é introvertido, calmo, quieto, que fala pouco, embora possua um senso de humor charmoso. Em um dos capítulos, os pais dão a entender que ele já teria recebido atenção psiquiátrica e psicológica. Inconformado com a morte de Hanna, sabe que uma das fitas refere-se a ele. Não consegue atinar qual seria a sua responsabilidade pela morte de Hanna. 

Fitas Cassete

Evocando outra figura representativa da aventura do herói, Clay tem um “fiel escudeiro”, por assim dizer. Esse amigo é Toni, um rapaz hispano-americano, um pouco mais velho, que estuda na mesma escola; ele é de uma classe econômica inferior às dos demais garotos, homossexual, possuidor de habilidades mecânicas (que desenvolveu com o pai), muito centrado, generoso e amigo de Clay. Um personagem simpático com quem o expectador facilmente se empatiza, tal como é o caso de Clay.
Toni também recebeu um conjunto de fitas e conhece todo seu conteúdo. A cada pergunta de Clay sobre o que as fitas contêm, ele sempre responde dizendo que o próprio Clay deve ouví-las. Ou seja, é necessário viver a experiência e o mistério da morte da amiga, sem abreviar passos. A alma pede a experiência pessoal, intransferível.
A estrutura narrativa obriga o espectador a acompanhar o ritmo de Clay (ouvi alguns comentários de críticos da série de que o ritmo lento seria um aspecto negativo dos episódios): ouvimos as fitas ao mesmo tempo que Clay. Portanto, participamos do mesmo ritual de acompanhamento de uma morte anunciada. Sofremos o que Hanna sofreu e sofremos com o testemunho e sofrimento de Clay.
Quando Clay pergunta a Toni (que, como disse, já ouviu todas as fitas), se ele acredita que ele, Clay, é também é responsável pela morte de Hanna, o amigo não alivia: responde afirmativamente. Entenderemos a razão dessa resposta quando Clay chegar à sua fita.
A escalada dramática dos episódios leva às agressões culminantes supostamente responsáveis pelo suicídio de Hanna: o estupro da amiga, de que Hanna se culpa por não ter intervindo; e o seu próprio estupro perpetrado por Bryce, o maior vilão da série. Aqui parece que os roteiristas sentiram a necessidade de pesar a mão para justificar o ato extremo de Hanna. O fato é que não se precisa de tanto para a decisão de um suicídio. A alma pode suportar muito mais ou muito menos do que a série expõe.
Durante uma festa, Clay tem a oportunidade de aproximar-se intimamente de Hanna (para a torcida geral da galera que acompanha a série, porque o casal é lindinho mesmo!), que também já está apaixonada por ele, e somente não chegam a transar porque Hanna é
assombrada pelas lembranças de assédios e agressões sexuais vividos até aquele momento. Hanna afasta Clay. Clay respeita a sua recusa e vai-se embora. Ao ouvir sua fita, descobrirá que ali deixara passar o pedido de Hanna por solidariedade. Essa será a sua culpa. A sua timidez ao longo do período que antecede esse encontro e que o impede de declarar-se à Hanna cobra também o seu ônus de culpa. Moral da história: somos culpados até pelo que não fizemos e, às vezes, precisamente por isso. Outra lição da alma.
Ao final, Clay, num gesto de ousadia e coragem, típica dos heróis, confronta-se com Bryce, acusando-o do estupro de Jessica e de Hanna. É espancado por Bryce e durante a recuperação da surra, ainda em casa de Bryce, tomando um gole de bebida ironicamente preparado pelo arrogante vilão, consegue obter dele uma confissão. Essa confissão tornar-se-á conhecida e certamente Bryce pagará por seu crime.
Ao final do capítulo, saindo da sala do conselheiro da escola, após confrontá-lo com o pedido de ajuda mal sucedido de Hanna, entrega a fita com a confissão de Bryce e sai para o corredor. Encontra com Skye, uma garota excêntrica que parece já ter causado ferimentos em si mesma, convida-a para sair e ela topa. Ela pergunta quando. E ele diz: agora! E saem da escola, gesto que em outros tempos seria impensável para Clay. Mas, agora, Clay aprendeu a não perder tempo com titubeios e incertezas.
Na cena seguinte, Clay, Toni, o namorado deste, Brad, e Skye, encontram-se no carro de Toni indo para algum lugar. Um “tour" de excêntricos, porque esse é o preço que se paga pela afirmação da própria singularidade, um típico “on the road” de libertação da alma!
A experiência de Clay com a alma (poderíamos pensar que Hanna representa a interioridade de Clay), experiência de sofrimento e morte, transforma a personalidade de nosso protagonista: Clay experimentou as dores das perdas, das traições, das incertezas, das duvidas sobre si mesmo, confrontou-se com a morte, descobriu a coragem e o significado da solidariedade. Adquiriu a integridade que o acompanhará pela vida afora. Mais um para quê da alma: para se viver inteiramente é necessário enfrentar a possibilidade da morte.

Referências
Hillmam, J. (1993). Suicídio e alma. Trad. S. M. C. Labate. Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1964)
Dawson, T. (2002). Jung, literatura e crítica literária. In Young-Eisendrath, P. & Dawson, T. (Orgs.), Manual de Cambridge para Estudos Junguianos, pp. 239-259. Porto Alegre: Artmed. (Trabalho original publicado em 1997)
Comunicação realizada no encontro “Vozes da Alma em Sofrimento”, IESB - Brasília (DF), em 3 de maio de 2017.
Roque Tadeu Gui.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Malévola, a viva transformação dos contos de fadas (Contém Spoilers)

INSTITUTO JUNGUIANO DE BRASÍLIA - IJBSB













E CONTE OUTRA VEZ...
Malévola, a viva transformação dos contos de fadas


Márcia David Ribeiro Fregapani





(Brasília/Agosto/2014)
Resumo

    De acordo com Von-Franz (1972) a história da Bela Adormecida, é muito antiga e possui poucas variações nas versões encontradas, pois sua substância fundamental modificou-se muito pouco. Isso demonstra que a base psicológica trazida pelo conto, como tema fundamental, é universal. Porém, muitos mitos sofrem algumas alterações e migrações de temas, pois os conteúdos arquetípicos podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar, pois nascem espontaneamente em nossa psique.
    O filme da WaltDisney, Malévola, fez uma atualização de alguns conteúdos psíquicos presentes na história da Bela Adormecida, trazendo a tona migrações nas imagens de alguns conteúdos do desenvolvimento do feminino, como uma nova visão do lado terrível do materno e do amor nos contos de fada.
    Esse artigo possui como objetivo de analisar o filme da Waltdisney, Malévola (2014), com o intuito de discutir as transformações que ocorreram no conto.

Malévola (Angelina Jolie)


    Para Von-Franz (1990) ”os contos de fada são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo” (p.9). Ou seja, são um forma de atingir os arquétipos de forma plena. Segundo a autora, existe um material cultural consciente menos específico do que no mitos e lendas, por isso, demonstram de forma clara as estruturas básicas da psique.
    De acordo com Jung (1976) os arquétipos são conteúdos do inconsciente coletivo, ou seja representam essencialmente um conteúdo desse. Pode ser modificado quanto a sua conscientização e sua percepção, e variam de acordo com a consciência individual. Porém o homem moderno muito se distanciou da vivência simbólica de sua alma e se secularizou a ponto de tornar-se cego em relação a vida psíquica. Povos primitivos, em compensação, possuem  uma vivência real de seu mundo interno e dos símbolos do mundo, com a utilização de sonhos, mitos e contos em suas vidas diárias.
    Os contos de fadas nasceram com um intuito educativo. Mulheres  mais velhas contavam às suas crianças histórias simbólicas, na Antiguidade. Já na Idade Média, eram voltados para adultos e crianças, pois eram a principal forma de entretenimento das populações agrícolas, em épocas de frio. Hoje em dia continuam apresentando uma função social e psíquica, pois os contos de fadas possuem a intenção de descrever um acontecimento psíquico, mas este fato é difícil e complexo de se discutir e representar, então é contado com várias versões, de variadas formas e repetidamente para que seja possível trazer o conteúdo à tona na consciência (VON-FRANZ, 1990).
    De acordo com Von-Franz (1972) apesar das variantes formas da história da Bela Adormecida, alguns aspectos aparecem como aspecto geral: o fato de existir o nascimento de uma criança e fadas são convidadas para a festa de batismo, porém uma delas fica excluída desse evento. Essa mulher excluída lança uma maldição na criança que se concretizará quando ela estiver com 15 anos de idade. Porém, as boas fadas atenuam essa pena.
    Este conto explora a temática do desaparecimento da filha divina. A criança recebe ao mesmo tempo um certo número de bênçãos e uma maldição. Isto demonstra a figura dupla e variável que a mãe ou ser que representa a fecundidade pode demonstrar. Explicitando assim, todo poder de nutrição e fecundidade, porém toda ira e capacidade de vingança, ao perder sua filha. A autora compara a Bela Adormecida com o mito de Deméter e Perséfone. Demonstrando como Deméter pode passar de um aspecto para outro, dependendo das atitudes e natureza de sua filha. (VON-FRANZ,1972).
    De acordo com Von-Franz (2009) culturalmente os aspectos da mãe sombria foram sendo recalcados, tornando assim, a figura materna uma representação apenas divina e bondosa, baseada na devoção da Virgem Maria. Sendo que a “deusa-mãe” contemplada em mitologias mais antigas, como a grega e a egípcia, demonstravam um aspecto mais impulsivo e visceral do materno. A autora faz uma afirmação interessante, a qual baseia profundamente a motivação desse artigo:

“O aspecto sombra da deusa mãe antiga ainda não fez  sua reaparição em nossa civilização, o que nos coloca diante de uma interrogação, pois é evidente que com ela um elemento importante está ausente” (VON-FRANZ, 1972, p.45).

A bela Adormecida


    O filme Malévola trouxe essa reaparição a qual a autora se referiu. A história possui como personagem central a sombra da deusa mãe, pois a bruxa do filme da Bela Adormecida (1955) é protagonista dessa trama. O filme conta a história de Malévola desde sua infância e assim demonstra profundamente os porquês de sua vingança e ira. O fato do filme contar sua história e seus processos psíquicos profundos retira a dicotomia entre a figura da mãe boa e a figura da mãe terrível, trazendo assim um aspecto mais integrado com a totalidade desse arquétipo.
    Malévola, que no nascimento de Aurora, coloca-lhe uma maldição por ter sido ferida amorosamente pelo Rei, é exatamente a mesma pessoa responsável pela quebra da maldição com um beijo de amor. Pois nessa versão, a princesa não é acordada por um beijo de amor do príncipe, mas sim por um beijo dado por Malévola.
    Esse beijo possui um aspecto importantíssimo para a noção geral dessa reaparição da figura sombria da mãe. Durante todo desenvolvimento de Aurora, que é cuidada por três fadas boas e atrapalhadas, Malévola acompanha de longe todos os passos dados pela princesa. Vivendo assim, uma mistura de sentimentos, pois em muitos momentos sente raiva e ressentimento por Aurora, porém em outros a protege e admira a bondade da criança.
    A maldição dada por Malévola é a seguinte: aos 15 anos, a princesa colocará o dedo em um fuso e dormirá em sono profundo. Somente poderá ser acordada com um beijo de amor verdadeiro. A bruxa somente coloca essa condição, porque na época do nascimento de Aurora, não acreditava no amor e assim tinha a convicção de que a princesa morreria nesse sono profundo.
    O filme demonstra o processo de individuação vivido por Malévola. No início do filme, a bruxa é demonstrada como uma fada, uma das mais poderosas de seu reino. Com asas grandes e poderosas, era respeitada por todos os seres fantásticos da floresta. A pequena fada apaixona-se por um humano e durante anos vivem esse amor. Porém, em uma atitude de ganância e traição, o jovem corta as asas de Malévola para poder tornar-se rei. A fada é profundamente magoada e ferida, transformando-se em uma mulher amarga e vingativa. Sua vingança concretiza-se no batizado da filha desse Rei, Aurora, quando coloca sobre a doce criança sua maldição.
    Para Von-Franz (1915) o processo de individuação não é um estado, mas sim um processo que sempre pode ser aprofundado. E que este processo seja, nada mais nada menos, do que conhecer realmente sua própria condição humana.
    Ao passo que Aurora cresce, Malévola vai se apaixonando pelo jeito de ser da menina: sua bondade, pureza e beleza. E convive com a pequenina princesa na floresta encantada, sentindo-se arrependida por sua maldição. Aurora conhece um príncipe e Malévola sente-se aliviada por saber que essa poderia ser salva por um beijo de amor dado pelo príncipe. Eis que uma grande e importante questão é colocada agora: Aurora não é acordada por um beijo do príncipe, mas sim pelo beijo de amor dado por  Malévola. Amor esse que é desenvolvido em todo processo de individuação vivido pela mãe sombria, visitando assim os infernos de sua alma, sentindo as nuances do ódio, da vingança e da ira; porém também vivenciando o amor, a proteção e a admiração.
    Esse beijo demonstra a construção do amor verdadeiro, aquele que  conhece seus aspectos sombrios e iluminados. Malévola enfrentou sua ira e vingança para encontrar o sentimento de amor verdadeiro.
Desta forma, a noção da mãe sombria e da mãe bondosa, não necessitaram ficar separadas em duas figuras, a das fadas e da bruxa, mas sim reunidas em uma só figura, mais sintética e real.
    De acordo com Von-Franz (1972) os conteúdos vividos por deuses ou por personagens de contos são conteúdos arquetípicos que de alguma forma foram recalcados ou negligenciados pela cultura. Esses complexos não são de forma alguma patológicos, mas sim estruturas dinâmicas que fazem parte da vida normal.
“Os complexos, mesmo normais, não são portanto fenômenos sempre harmoniosos entre os humanos. Eles podem combater entre si e mesmo afastar outros impulsos instintivos. Um deus esquecido significa que certos aspectos do consciente coletivo estão colocados em primeiro plano de tal maneira que outros foram , em sua maioria, lançados no esquecimento. Foi esse o destino da deusa-mãe em nossa civilização”. (p.51)
   
    É possível ver esse renascer da deusa-mãe na história de Malévola, pois todos seus aspectos sombrios e viscerais não são poupados para que se possa enxergar o amor de mãe verdadeiro. Malévola representa desta forma um complexo sendo integrado com sua sombra. Para Von-Franz (1915) no momento em que conhecemos todas as possibilidades do mal que nos contém, é possível desenvolver uma visão mais aprofundada. E que a única maneira de não se andar pelo mundo de forma tola e inocente é descer até as profundezas do próprio mal e se reconhecer.
    De acordo com Kast (2011) o tema do amor pode parecer de diversas formas nos contos de fadas. Uma delas é a temática da libertação mútua, que ocorre após um período de individuação e que implica em renúncias e cortes com pessoas ou sentimentos da vida passada, e assim, esse amor, consegue libertar mutuamente as maldições. No beijo de amor, Aurora é liberta do sono profundo e da morte; e Malévola é liberta da descrença do amor e da felicidade.





Conclusão
    A integração dos aspectos sombrios da deusa-mãe a figura da mulher é fundamental para que ocorra uma libertação do feminino na contemporaneidade. Pois muitas mulheres colocam-se em verdadeiras prisões mentais por não poderem socialmente reconhecer os abismos de suas almas, e assim, vivendo em situações de neuroses severas, como depressões que atrapalham muitas vezes a vivência saudável da sexualidade e construção do materno.
    Muitos contos de fadas demonstram a vivência cultural desse complexo, em que a visão sombria da mãe e da mulher deve ser dicotomizada e excluída das vertentes da mãe bondosa, caridosa e fecunda. Não é à toa que possuímos histórias de fadas e bruxas, em lados opostos, colocando assim o bem e o mal sempre separados, dificultando dessa forma uma vivência da totalidade e processo de individuação.
    O filme Malévola faz uma quebra nesse padrão e une a fada e a bruxa em uma mesma mulher. E é essa mulher capaz de quebrar maldições e tornar-se rainha.
    De acordo com Von-Franz (1972) a personagem da fada má é a personificação de sentimentos feridos e acres. Ela demonstra o orgulho ferido e o rancor. Essas características podem esclarecer problemas da mulher pós moderna, pois ela está tendo dificuldades em integrar e superar suas feridas afetivas. Com consequência, são possuídas pelo rancor, mau- humor e decepções.
    A história de Malévola (2014) traz uma libertação ao feminino, pois supera as versões dos Irmãos Grimm, Perrault e até mesmo da própria Waltdisney (1955), pois ilumina campos que estavam esquecidos e enfraquecidos na psique do feminino. Para Von-Franz (1972) o conto da Bela Adormecida é uma história coletiva e não pessoal, logo é possível perceber que nossa civilização afastou-se artificialmente da deusa-mãe.
    Se Von-Franz estivesse viva para assistir esse “Conte outra vez...”da Bela Adormecida, se sentiria muito satisfeita em poder ver o renascimento da deusa-mãe em nossa civilização e com esse ressurgir, a libertação de um feminino que pode conectar-se com seu primitivo sem temer e buscar sua totalidade no seu processo evolutivo de individuação.
Referências Bibliográficas

KAST, V., O amor nos contos de fadas, Petrópolis, Ed. Vozes, 2009.

VON-FRANZ, M., A individuação nos contos de fada, São Paulo, Ed. Paulus, 1915.

VON-FRANZ, M., A interpretação dos contos de fada, São Paulo, Ed. Paulos, 1990.

VON-FRANZ, M., O feminino nos contos de fadas,Petrópolis. Ed. Vozes, 1972.

JUNG, C., Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis. Ed. Vozes, 1976.