Sinopse: a partir do advento das tecnologias digitais, as câmeras fotográficas passaram a ser utilizadas de maneira comum e popular, em telefones celulares. A internet e as redes sociais tornaram-se, do mesmo modo, o lugar de exposição para estas imagens. O artigo explora a relação entre as imagens produzidas, suas motivações e relação com a psique humana, arquétipos e complexos que comparecem tanto no ato de fotografar quanto no compartilhamento dessas imagens, particularmente a selfie ou autorretrato.
Uma bela paisagem, um dia de sol, céu azul, mar transparente, a mata quase intocada, a pequena ilha de areias brancas. Rochas se enfileiram ao redor da praia, pequenas e grandes, visíveis e submersas, inúmeros peixes podem ser observados bem ali no raso, ao redor das pedras. Aos poucos os turistas vão chegando: são escunas, lanchas pequenas, outras maiores e iates também ancoram no local. A paisagem de antes se transforma. Muitas pessoas fotografam com as câmeras de celulares. Alguns fotografam a paisagem, outros fazem fotos submersas, alguns fazem selfies, sozinhos, em pares e em grupos.
A fotografia tornou-se popular com a chegada das câmeras de celulares e ao mesmo tempo tornou-se um fenômeno. Existem muitos recursos e tecnologias sofisticados, que fazem inclusive fotos submersas, facilitando o usuário, geralmente de modo simplificado. Pessoas comuns tornaram-se repórteres das próprias vidas, as viagens e eventos são narrados, fotografados e postados na internet, há também aqueles que revelam intimidades. Geralmente, a maioria das pessoas têm o habito de se fotografar, de diferentes maneiras, em diversos lugares, podendo, nessa tarefa se prolongarem até por muito tempo, retratando a própria imagem, registrando aquele momento. Às vezes deixam de viver o momento, o evento, a paisagem, o lugar e permanecem centrados nas fotografias, dando menor importância ao que acontece a sua volta. Através da postagem em redes sociais, existe a possibilidade do reconhecimento público da imagem, sendo inclusive um meio de alcançar certo prestígio ou admiração.
Diversos nomes da história da humanidade foram retratados e podemos saber como eram esses personagens históricos através de esculturas e pinturas encontradas em museus ou praças públicas. Era necessário ter alguma condição material para encomendar do artista local ou para trazer um artista renomado, para executar o registro para a posteridade. Na renascença, os retratos eram executados por pintores que alcançaram, possivelmente, visibilidade em suas carreiras; eles também produziram autorretratos e seus rostos tornaram-se conhecidos. Porém era a nobreza que encomendava seus ofícios, imagens de homens e mulheres, heróis e damas, geralmente pessoas de renome. Os artistas se utilizavam de uma técnica que era quase uma imitação de realidade. De acordo com Umberto Eco, ”O uso da perspectiva na pintura implica, de fato, a coincidência, de invenção e imitação: a realidade é reproduzida com precisão, ao mesmo tempo que de um ponto de vista subjetivo, do observador, que em certo sentido adiciona a exatidão do objeto à beleza contemplada pelo sujeito” (P.194).
A ideia de atrair reconhecimento através da imagem pessoal sempre existiu, é arquetípico, tendência pré-existente, viva no espírito humano. Tornar a própria imagem mais atrativa ou propaga-las com essa intenção faz parte dessa ideia. Retocar a própria imagem hoje é possível através da tecnologia das câmeras e dos programas de edição, da mesma maneira que se fazia na renascença, apenas se utilizam outros recursos. É possível embelezar a imagem e sair bem na foto.
Podemos afirmar que na maior parte do tempo é a persona, enquanto arquétipo, que está sendo retratada e se apresentando no espaço virtual. Tanto a persona quanto o ego encontram-se na consciência, porém os conteúdos inconscientes não estão livres de influencia-los de alguma maneira. Para C.G. Jung a persona funciona como máscara social, ocultando de fato a verdadeira natureza do indivíduo, ela se adequa ao coletivo. Um sacrifício se dá, obrigando o eu (ou ego) a se identificar com a persona, muito embora exista um mundo particular no interior do indivíduo (Jung, 2013). A persona atua, mas o verdadeiro eu, está em outro lugar. A aparência da imagem pode ser muito diferente de seu conteúdo.
O registro pela pintura ou desenho (menos comum) cedeu lugar para a fotografia, no século 18, tornando-se domínio do homem contemporâneo. Roland Barthes, em “A Câmara Clara” realiza um estudo filosófico sobre a fotografia, desde seus primórdios e analisa diversas imagens. Menciona que a fotografia analógica, com seus laboratórios que revelavam as imagens capturadas pela câmera, tem suas bases na alquimia, (o texto é anterior ao advento da fotografia digital). Com relação ao retrato, por onde a fotografia interceptou a pintura, ele cita: “A Foto-retrato é um campo cerrado de forças. Quatro imaginários aí se cruzam, aí se deformam. Diante da objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que me julgo, aquele que gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte. (P.17) ”. Considerando que nas selfies, o fotógrafo e o fotografado são a mesma pessoa, o campo se torna ainda mais cerrado. Aquele que se fotografa além de criar julgamentos a respeito de sua imagem, cria fantasias sobre si.
As representações do eu que estão carregadas de tonalidade afetiva, estão relacionadas a complexos, que derivam de arquétipos, que por sua vez escapam ao controle da consciência. Verena Kast em “A Dinâmica dos Símbolos”, define o eu, citando Jung, como sendo a “expressão psicológica da união firmemente associada de todas as sensações físicas comuns” (P.24), as sensações nos chegam pelos sentidos que por sua vez percebem a realidade de maneira subjetiva e pouco racional, o complexo do eu envolve o corpo e o sentimento do corpo. Segundo a mesma autora, a vivência da identidade, seu desenvolvimento, o sentimento de vitalidade, a atividade do eu e o sentimento de estar vivo pertencem ao complexo do eu; a identidade possui fronteiras que são transitórias. A imagem que cada um tem de si pode se libertar da persona e alcançar substratos de outra natureza através do confronto com essa mesma imagem. Algo se revela e produz no outro algum efeito.
Em ”Psique e Imagem”, Gustavo Barcelos fala acerca de emoção e imagem relacionando-as: “Vivemos emocionalmente; as emoções estão por dentro de (ou no fundo) de tudo, ainda que possam estar exiladas em alguma câmara escura da alma, inconscientes, sem contato, sem registro, banidas, não reconhecidas. ” (ebook). No texto, a criação de imagens é descrita como trabalho da psique humana, indo sempre além de um conceito, não deve ser interpretada, existem nela muitos significados que se relacionam em sua complexidade. A psique se faz representar através das imagens, de modo indireto e alegórico. Mesmo em imagens diretas há sentidos encobertos. O autor afirma que após o advento da descoberta do inconsciente, as imagens se tornam um grande campo de pesquisa, uma vez que existe uma conexão entre ambos. As imagens estão presentes em sonhos, fantasias, na arte, nos mitos e seguindo o texto: “as imagens são o meio pelo qual toda experiência se torna possível. A imagem é o único dado ao qual há acesso direto”. Muitos significados correlacionados estão presentes nas imagens conferindo a elas grande complexidade.
Imagem e fantasia estão interligadas, a nível inconsciente imagens são produzidas, alcançam a consciência, embora não seja possível decifra-las completamente. O emergir da imagem, seja em atividade criadora consciente, na forma de um sonho ou em devaneio, reflete o movimento da libido. A libido se expressa na forma da fantasia. O que é projetado pela imagem libera conteúdos do inconsciente para a consciência, produzindo a função compensatória. O ato de compreensão desses conteúdos simbólicos gera a função transcendente, que é transformadora. A personalidade pode se transformar através da função transcendente, compreendendo seus símbolos, atenuando o confronto entre opostos.
Portanto, as imagens produzidas em atividades criadoras incluem imagens fotográficas, como as selfies. Uma multidão de selfies são despejadas diariamente nos espaços virtuais. Várias experiências podem surgir do ato de se fotografar e se expor, fantasias a respeito de si podem estar presentes na produção dessas imagens. O complexo do eu, com seus conteúdos afetivos, pode estar presente assim como a persona, a máscara social; na medida que ocorre a exposição, interpretações podem surgir, tanto dos espectadores/observadores, quanto da própria pessoa, que ao se ver novamente, cria novas fantasias, experimentando outras percepções; é possível que este processo dinâmico resulte em alguma transformação. A busca de reconhecimento público pode trazer revelações para o próprio indivíduo, tanto ele pode ser aprovado, quanto desaprovado. A persona pode não ser o suficiente para encobrir outras partes inconscientes. A selfie tenta encobrir algo, porém esse algo não se esconde totalmente, revelando segredos. Também guardamos fantasias a respeito de nós mesmos, também possuímos ambivalências e aspectos reprimidos. Existe o ideal do eu que se encontra fora de alcance, mas que ao mesmo tempo serve de norte para a construção de uma identidade. Segundo Verena Kast, tanto o ideal do eu quanto o complexo do eu se transformam incessantemente na medida em que existe o confronto com a sombra (P.76). Para Jung, a sombra é individual, mas compreendida enquanto arquétipo, por ser arquetípica tem suas bases no inconsciente (Jung, 2013:19). Uma vez que ela se manifeste, conteúdos inconscientes estarão presentes. É justamente esse confronto que amplia a consciência, a função transcendente, compensatória, refaz as fronteiras entre consciente e inconsciente, alcançando a fonte de tudo, que é o si-mesmo. Verena Kast, afirma que o complexo do eu, como todo complexo se liga a um ponto que é arquetípico, no caso ao si-mesmo; “o si-mesmo é entendido como personalidade atual e futura, ele revela no decorrer da vida nosso oculto objetivo de vida por meio do desenvolvimento do complexo do eu, desenvolvimento este também intencionado pelo si-mesmo” (P.27). Durante a vida, esse ajuste se dá muitas vezes, o complexo se constela e se confronta gerando transformações na identidade. Para Jung, “o Si-mesmo, irracional e indefinível, o eu não se opõe, nem se submete, simplesmente se liga, girando em torno, como a terra em torno do sol – meta da individuação, imagem na qual estamos incluídos apesar de não ser possível descrevê-la” (JUNG, 2013: 405).
Concluindo, embora seja um fato novo, podemos pensar na relação que um indivíduo desenvolve com a sua própria imagem, muitas vezes registrada por ele mesmo, através de meios tecnológicos e compartilhada também por ele, nas redes sociais e o efeito que as interpretações, reações do outro possam lhe causar. Podemos considerar também as fantasias criadas a partir dessa experiência e as compensações geradas. O fato novo, produzido pelas possibilidades tecnológicas também incide a nível coletivo, ampliando o acesso às imagens que são geradas e modificando padrões de comportamento. Podemos pensar que não capturamos a imagem, mas que a imagem nos captura. Uma nova frente de estudo, de ampliação na compreensão do humano se apresenta; poderemos explora-la melhor na medida que o comportamento se expande, tornando-se cada vez mais comum e acessível entre nós.
Referências Bibliográficas
ECO, Humberto (2010). Historia de La Belleza. Ed. Debolsillo, 2010
JUNG, C.G. (2013). Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. OC, 9/1. Petrópolis: Vozes.
BARTHES, Roland (1980). A Câmara Clara, RJ: Nova Fronteira.
BARCELOS, Gustavo (2017). Psique e Imagem, RJ: Vozes
KAST, Verena (2013). A Dinâmica dos Símbolos, RJ: Vozes.
Sinopse: a partir das considerações de Jung sobre a presença maciça de imagens arquetípicas no inconsciente coletivo e sua relação com eventos mitologizados da natureza, o texto a seguir explora o processo simbólico existente através de uma vivência na imagem e da imagem. Através das projeções as formas arquetípicas se manifestam, assumindo alguma definição. Entre os arquétipos existentes o texto foca principalmente na anima, que humaniza a existência e cuja ausência gera perda de vitalidade e com a qual é necessário manter conexão. O texto também se utiliza da linguagem alquímica por ser essencialmente metafórica, gerando um pensamento imaginativo capaz de criar significado através de analogias.
Desertos são lugares impactantes e singulares. Alternam paisagens áridas, dunas de areias com oásis restauradores que acolhem aqueles que nele se aventuram numa jornada repleta de riscos. Os desertos podem se tornar verdejantes depois de um curto período de chuvas, modificando totalmente, por pouco tempo, sua fauna e flora, trocando a aridez por uma promessa de vida. Seres de toda espécie, do reino vegetal e animal se proliferam rapidamente até o último instante da estação chuvosa para se reproduzirem. Todo e qualquer deserto guarda em si essa promessa, nos animais que ali sabiamente sobrevivem fazendo uso de seus instintos, nos vegetais que sabem retirar da natureza o mínimo para a sua existência. Por serem demasiadamente inóspitos são pouco ocupados por seres humanos e dessa forma mantém intactas suas características naturais. Ali a Terra é o que é, sem interferências significativas do homem. O deserto pode, como toda expressão da natureza, ser tomado como um representante do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue apreender através da projeção, espelhada nos fenômenos da natureza (JUNG, 2013, 5).
O deserto do qual falaremos é o Atacama, localizado no Chile e próximo à fronteira com a Bolívia, como todo deserto é de difícil acesso; mas talvez seja um lugar único por suas características, alternando paisagens antagônicas: verdadeiros desertos repletos de rochas de todos os tamanhos, sem qualquer vegetação, com lagoas de águas salgadas, montanhas, vulcões, animais silvestres, muitas aves, riachos de águas frias, riachos de degelo, e também de águas quentes, gêiseres (vapores lançados por fontes termais que se encontram debaixo da terra), vegetações rasteiras, arbustos e flores (!). Uma nova paisagem se revela, mas, sobretudo uma imensa vastidão se interpõe, imensos vazios sem viva alma (?). Este deserto, guarda em si, imagens de uma natureza primitiva, pura, que se opõe formando contrastes, se o visitante for observador e se abrir para essas imagens é possível viver uma experiência única e profunda.
Existe o vazio desértico, vazio concreto, existe também o vazio interno, vazio metafórico, destino de todo ser humano; ao adentrar o vazio é preciso coragem e destemor, porém é o vazio interno que faz caber a experiência dentro. O vazio do deserto é composto por areia, cristais e rochas onde quilômetros são percorridos e a paisagem pouco de modifica, a secura, a falta de umidade, a poeira, o sol constante, a claridade se reflete nas rochas, ofuscando o olhar, o deserto parece não ter fim. A vastidão não é acolhedora, não oferece nenhum continente, é fácil se perder ali, se perder é um grande risco, pode ser mortal perder-se nessa imensidão. Inesperadamente surgem lagoas rodeadas de muito verde, pequenos arbustos, montanhas cobertas de vegetação rasteira e aves de muitos tipos. A mudança na paisagem é impactante, parece inacreditável que exista aquele tesouro de abundância onde antes só havia pó, o vazio se alterna dando lugar a algo que preenche, nutre e acolhe com cores vivas. Os tons neutros e homogêneos das rochas e areias são substituídos por uma profusão de cores. Se existe alguma debilidade física causada pela altitude, pelo frio ou clima seco, características do lugar, naturalmente há uma tendência a quietude, pode ocorrer uma introversão de energia, necessário economizar os passos para vencer o espaço. Um estado de semissonolência pode se instalar alterando a atenção e rebaixando o juízo, criando um vazio que torna possível ingerir a paisagem através do olhar. Esse estado da mente, do corpo, gera a adaptação necessária para absorver o que o deserto tem a dizer, absorver suas contradições e transcender a confrontação sem se abater, conceber o deserto em sua totalidade é absorver seu incrível movimento, num diálogo onde opostos se incluem, porque essa é a sua natureza. Para tomar posse da experiência intensa que o deserto provoca é necessário se apropriar de sua essência e dela retirar a energia necessária para se adaptar, encontrar o equilíbrio necessário e assumir um lugar de condução. O deserto não possui uma única representação e investir nessa ideia é um grande risco, risco de jamais sair de seu vazio. As imagens têm o poder de ganhar vida e movimento e isso pode se dar tanto fora como dentro, desde que o convite feito, seja aceito. (JUNG, 2013: 159, 166, 181, 183, 184, 186, 187, 189).
O deserto invade de tal forma que se torna impossível resistir a ele. É possível ouvir a alma, seu sopro mágico de vida, sua ousadia, quebrando a aparente inercia do vazio desértico nos oferecendo vida. A alma nos conduz ao sagrado e tudo que é por ela tocado torna-se numinoso. Trata-se da alma-anima, o arquétipo da vida, capaz de nos conduzir a um significado mais elevado (JUNG 2013: 58, 60). Jung define o arquétipo anima como sendo a parte feminina da alma, ela é ctônica, está relacionada a terra, ao telúrico (Jung, 2013: 119). A anima pode ser encontrada nas sizígias, conjunções de pares de opostos e a imaginação está presa a este motivo projetando-o repetidamente (JUNG 2013: 120).
“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico” (JUNG, 2013: 280).
A visão de uma lagoa surge na paisagem, cabe perfeitamente, suas bordas arredondadas, as águas serenas, limpas. Refúgio das aves, banquete de alimentos, refúgio para o olhar, cenário que conduz ao pleno, plenitude de vida, imagem de quase sonho. Uma solicitação para tomar consciência, nada a acrescentar, o plano que se apresenta é perfeito.
“O devaneio diante das águas dormentes dá-nos essa experiência de uma consistência psíquica permanente que é o bem da anima. Recebemos aqui o ensinamento de uma calma natural, e uma solicitação para tomar consciência da calma de nossa própria natureza, da calma substancial da nossa anima. A anima princípio do nosso repouso, é a natureza em nós que basta a si mesma, é o feminino tranquilo. A anima, princípio dos nossos devaneios profundos, é realmente, em nós, o ser de nossa água dormente” (BACHELARD, 66).
No deserto há também o sal, ele está no ar, nas bancas dos mercados, na beira das lagoas, na água do chuveiro que impede a espuma na hora do banho, em todo lugar. O sal seca tudo. Se faz o charque, o bacalhau, todo tipo de conserva utilizando o sal. Antes, quando não havia a luz elétrica, refrigeradores e freezers, essa era a forma de conservar alimentos. Naquela época o sal valia ouro. O sal desidrata e retira a umidade impedindo assim que bactérias se proliferem. O sal coagula, petrifica, as imagens do Atacama já se encontram conservadas na memória antes mesmo que o conheçamos pessoalmente. Não há como não ser tocado por essa alternância entre o que seca e o que encharca, o vazio e o pleno. O sal que conserva as memórias para que um dia retornem, é também o sal que resta quando a água seca. A alma não vive sem o sal, ela recorda o lugar exato onde o sal se encontra, o sal das experiências profundas, o sal que arde é o mesmo sal que cura. O sal é a própria terra (Hillman, 2011: 95, 96, 97, 98). No deserto existem muitas minas de sal, mas o sal mais visível é aquele que surge da evaporação da água, principalmente as margens das lagoas, fica o registro da experiência, a água esteve ali, porém evaporou-se, vão-se as emoções, dessa maneira a “alma torna-se ígnea e seca” (JUNG, 2013:55), não apodrece, quando a alma quer viver é preciso salgar, assim se conserva e há de se dissolver um dia em águas restauradoras para novamente secar. Dissolve (solutio) e coagula (coagulatio), às vezes terra, às vezes água, esse é seu movimento, a partir de elementos femininos a alma se expressa, seja em uma bela lagoa ou num punhado de sal.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
BACHELARD, Gaston (2009). A Poética do Devaneio. SP: Martins Fontes.
HILLMAN, James (2011). Psicologia Alquímica. Petrópolis: Vozes.
JUNG, C.G. (2013). A natureza da psique. OC, 8/2. Petrópolis: Vozes.
__________ (2013). Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC, 9/1. Petrópolis: Vozes.
Resumo O artigo lança um olhar analítico sobre o filme “A Vida de Pi”, que conta a história de um rapaz que sofre um naufrágio de navio com toda a família, mas só ele consegue se salvar. Pi, entretanto, não foi o único a sobreviver, um tigre, Richard Parker, que estava no navio e pertencia ao zoológico do pai de Pi também sobrevive e os dois tem que dividir o mesmo bote até encontrarem terra firme. O filme faz uma grande analogia a partes do processo de individuação, especialmente no que se refere ao encontro com nossa sombra, ao contato com a anima e ao respeito pelo Self.
Introdução O presente artigo tem como foco o filme A Vida de Pi, lançado em 2012, dirigido pelo cineasta taiwanês Ang Lee. O filme nos mostra, de uma maneira muito bonita, poética e impactante, uma síntese de parte do que Jung denominou de processo de individuação, bem como apresenta conceitos de anima, de sombra e de Self. A obra é uma analogia à jornada humana para a individuação. Segundo Jung, individuação é um processo que gera um individuum psicológico, ou seja, uma unidade indivisível, um todo (JUNG, OC 9/1, pg. 274). É um percurso de desenvolvimento produzido pelo conflito de duas realidades anímicas fundamentais, o consciente e o inconsciente. Quando um é reprimido e prejudicado pelo outro, isso não resulta uma totalidade (JUNG, OC 9/1, pg. 288), assim a individuação é um processo que resulta da harmonização de aspectos conscientes e inconscientes da psique. O mecanismo psicológico por meio do qual a individuação ocorre é a compensação. A relação entre consciência e inconsciência é compensatória e tenta introduzir equilíbrio no sistema psíquico (STEIN, 2006, pg. 157). Segundo Hopcke (2012, pgs. 75 e 76), individuação é o processo de se chegar a um equilíbrio psíquico entre o consciente e o inconsciente, quando o ego e o Self apresentam relacionamento contínuo, consolidando um senso de individualidade única, tornando a pessoa capaz de viver de modo criativo, simbólico e individual. É um processo de tornar-se indivisível, tornar-se um consigo mesmo. De maneira geral, a individuação é um processo de uma vida, e boa parte das pessoas não conseguem alcançar esse desenvolvimento. É um processo difícil e puramente pessoal. Contudo, como a psicologia analítica é profundamente baseada em símbolos e imagens, a existência de algo que concretize parte desse processo é de grande importância a todos, e o filme em questão cumpre esse papel. Assim, na sessão seguinte, será apresentada a história do filme e, nas posteriores, serão traçadas as analogias de aspectos cinematográficos com a psicologia analítica e o tão almejado processo de individuação. História do filme “A vida de Pi” inicia-se com um homem adulto conversando com um repórter. Esse homem, Piscine Molitor Patel, é o personagem principal do filme. O repórter o procurou por indicação de um conhecido comum, que disse que Pi (apelido de Piscine) tinha uma história para contar que o faria acreditar em Deus, mas que caberia ao ouvinte escolher no quê acreditar. O protagonista começa então a narrar sua história. Pi era um menino que vivia com seu pai, sua mãe e seu irmão em Pochicherry, Índia. Sua família possuía um zoológico, que era uma das principais atrações da cidade. Desde criança Pi buscou a religião, e esse aspecto é central no filme. Ele se dizia hindu-cristão-mulçumano. Pi encontrou em cada uma dessas religiões diferentes respostas a diferentes dúvidas que tinha. Encontrou a fé no hinduísmo, o amor no cristianismo, e a tranquilidade no islamismo. Pi busca sempre entender Deus e seus planos para sua vida. Na época em que Pi já era um jovem adulto, devido a problemas sociais, políticos e financeiros, seu pai resolveu se mudar com a família para o Canadá, levando os principais animais do zoológico com eles. Nessa época, Pi havia conhecido uma garota chamada Anandi, pela qual se apaixonara. Antes de se mudar, coisa que ele não queria fazer, Pi não consegue se despedir da namorada. Toda a mudança foi feita de navio, com todos os cuidados necessários aos animais. No meio da viagem ocorre uma grande tempestade que acaba virando a embarcação. Pi consegue se salvar subindo em um bote, em que já estavam uma zebra com a perna quebrada e uma hiena. Após a tempestade, um orangotango fêmea aparece boiando em cima de um cacho de bananas e sobe no mesmo bote. Pi se vê, então, em um pequeno bote, em que metade dele está coberto por uma lona e a outra metade está exposta, onde se encontram a zebra ferida, a hiena e a orangotango. Com o tempo, a tensão e a fome no bote aumentam e a hiena ataca a zebra, matando-a. Como os animais eram muito queridos a Pi, ele sofre com isso e tenta brigar com a hiena, sem sucesso. Posteriormente a hiena atacou a orangotango, que era um animal muito importante para Pi. Ao ver a primata ser atacada, Pi tenta desesperadamente salvá-la, mas não consegue e fica extremamente raivoso. Nesse momento, um tigre salta de dentro da parte coberta do bote, avança sobre a hiena e a mata. Isso assusta muito Pi fazendo com que ele busque se refugiar fora do bote. O tigre é a segunda personagem principal do filme. Seu contato com Pi inicia-se ainda quando ele era criança e estavam no zoológico. Quando um tigre, chamado Richard Parker, chega ao zoológico, Pi fica fascinado por ele. Certo dia, ele tenta alimentar o tigre sozinho, com apenas uma grade os separando. Quando o tigre estava se aproximando, o pai de Pi presencia a cena e grita, afastando o animal. O pai então o repreende veementemente, diz que o tigre é um animal muito perigoso e que ele deve sempre ficar afastado dele. Pi diz que viu nos olhos do tigre a alma do animal, mas o pai diz ao filho que o animal é só um reflexo do nosso olhar, ou seja, que vemos nele o que carregamos dentro de nós. Inicia-se, então, o longo relacionamento entre Pi e o Richard Parker. Os dois passam muito tempo sozinhos no bote, se conhecendo e, posteriormente, aprendendo a conviver. É uma relação intensa, onde eles aprendem que, apesar do perigo, ambos precisam um do outro e precisam aprender a conviver para que possam sobreviver. A certa altura do filme, quando os dois estavam prestes a desfalecer, encontram uma ilha, na qual conseguem se alimentar e se revigorar. Mas essa ilha é carnívora e, à noite, mata quem permanece no seu solo. Percebendo isso a tempo, ambos conseguem partir salvos e a tempo. Posteriormente, quando todas as reservas já tinham acabado, eles encontram terra firme, chegam ao litoral do México. Nesse instante ambos saem do bote e o tigre entra na mata, sem se despedir de Pi, o que o deixa muito triste. No final, Pi conta essa história para as pessoas da companhia de seguros do navio que afundou. Eles não acreditam no que ele diz e pedem para ele contar a verdade. Pi conta, então uma história na qual ele diz que após o naufrágio do navio, ele consegue subir no bote, e nele estavam o cozinheiro do navio, que era um homem cruel e insensível, um marinheiro budista que estava com sua perna quebrada e a mãe de Pi. O protagonista pede então para os homens escolherem qual história eles preferiam. A partir dessa outra versão da história, entende-se que a hiena era a representação simbólica do cozinheiro, a zebra a representação do marinheiro, e a orangotango, de sua própria mãe. Então, fazendo a analogia com a primeira história contada, o cozinheiro matou o marinheiro ferido e depois matou a mãe de Pi. O protagonista teve então um acesso de fúria e matou o cozinheiro. O tigre representava, portanto e simbolicamente, o próprio Pi, mais especificamente aspectos inconscientes e primitivos dele, algo como sua sombra. As cenas finais do filme retomam Pi adulto com seus filhos e sua esposa, Anandi. Ela era sua antiga namorada e se reencontraram após o seu salvamento.
Pi
Elementos iniciais Antes de nos determos nos elementos principais trazidos pelo filme, um primeiro aspecto que chama a atenção é o nome do personagem principal. O filme mostra a vida de Piscine Molitor Patel. É retratado, de uma maneira muito clara, o sofrimento que o protagonista passou em sua infância devido ao seu nome e como ele procurou superar isso, transformando em algo positivo. Piscine passou a falar a todos que seu apelido era Pi, e para tanto decorou inúmeras casas decimais do número matemático Pi, que é a razão entre o perímetro de um círculo e seu o diâmetro. Isso foi um grande evento na escola. Ele foi bem sucedido nessa empreitada. Mas, simbolicamente, o apelido do personagem já nos dá dicas simbólicas do contexto em que se desenrola o filme. Pi é um número infinito e irracional, de acordo com a matemática. A Vida de Pi, como uma analogia ao processo de individuação, nos indica que esse processo é algo permanente na vida humana, e Jung nos diz que todos carregamos o impulso para a individuação, e é algo que não pertence exclusivamente ao campo do racional, mas está intimamente relacionado com a nossa inconsciência.. O apelido da personagem principal já nos indica que o filme diz respeito a processos que ocorrem com todos os indivíduos, não é personificado, nem tampouco consciente. Apesar de Jung não ter dito que o processo de individuação é algo infinito, como o número Pi, ele diz que o processo pode durar uma vida para acontecer, e que nem todas as pessoas conseguem atingi-lo. Segundo Stein (2006, pg. 155), a plena expressão e manifestação da personalidade (aspecto intrínseco à individuação) leva uma vida inteira para desenrolar-se.
A maior parte do filme é dedicada a mostrar Pi tentando conviver com o tigre no bote. Essa é a temática principal do filme e nos leva a pensar como um cenário aparentemente limitado (um bote, um homem, um tigre e o oceano) consegue prender a atenção dos espectadores durante mais de uma hora. Uma possível resposta para isso é a de que esse cenário envolve aspectos arquetípicos, o que faz sentir-nos parte do filme. É claro que a fotografia do filme é algo belíssimo, o que contribui em parte para prender nossa atenção. Richard Parker, o tigre, aparece no bote em um momento de extrema fúria de Pi. O cozinheiro estava atacando sua mãe. Nessa hora em que a hiena ataca a orangotango, o tigre sai da parte coberta do bote e mata a hiena. O bote representa tanto aspectos conscientes de Pi (parte descoberta) quanto aspectos inconscientes (parte coberta pela lona). O tigre sai da parte coberta e avança para a descoberta. O tigre sai da inconsciência para a consciência. Nesse momento extremo de sua vida, Pi traz à tona aspectos presentes em sua sombra. “Ele trouxe o diabo para mim” disse Pi sobre o cozinheiro. O tigre representa parte da sombra de Pi, que naquele momento mostra-se ameaçadora, letal, perigosa. Ao mesmo tempo em que a manifestação da sombra traz certa justiça ao bote (matando um elemento externo nocivo e detestável), ela assusta muito seu detentor. O filme centra-se, portanto, no conflito ego-sombra, em direção ao processo de individuação. Vale a pena, nesse momento, conceituar a sombra, que, segundo Jung (OC, 9/1, pg. 513), personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente. Ela é, segundo Stein, (2006, pg. 100) uma estrutura psíquica inconsciente que não pode ser controlada pelo ego, é o lado inconsciente das operações do ego e seria caracterizada pelos traços e qualidades incompatíveis com o ego consciente e a persona. São as partes da personalidade que normalmente pertenceriam ao ego se estivessem integradas, mas foram suprimidas. Retomando o filme, Pi estava em um bote no meio do oceano. O oceano é um símbolo costumeiramente associado ao inconsciente. O próprio Jung disse que se estivéssemos à noite, em um pequeno barco no meio do oceano, segurando uma vela acessa, nosso consciente seria representado pela área que a vela consegue iluminar no barco, e nosso inconsciente seria todo o resto, incluindo o oceano. Outra associação comum de se encontrar é a água como símbolo de nossa essência emocional. Portanto, em um ambiente em que imperam a inconsciência e as emoções, simbolicamente, surge nossa sombra, ou o tigre do filme. Quando Richard Parker aparece no bote, Pi se joga no mar. Ele vê que não é possível a convivência de ambos em um mesmo bote. Sombra e ego são antagônicos, a princípio. Pi, então, utilizando partes do bote principal, constrói uma boia para ele e a amarra ao bote, assim o ego consegue sobreviver sem enfrentar o tigre, e sem se entregar ao inconsciente oceânico. Entretanto, o Self (ou Deus, ou forças a natureza) faz com que o ego comece a se aproximar da sombra. Esse aspecto é parte essencial do processo de individuação. A sombra nunca será totalmente conhecida e integrada ao ego, mas ambos precisam conviver harmoniosamente para a saudável sobrevivência psíquica do indivíduo. Uma noite, quando Pi estava em sua boia, uma enorme baleia (uma força da natureza) surge do fundo do oceano, dá um pulo para fora da água e cai em cima da corda de ligação da boia com o bote, destruindo a boia de Pi. Piscine consegue reconstruir algo flutuante para ele ficar em cima, mas ele sabe que é algo provisório e que ele terá que ir ao bote principal, mais cedo ou mais tarde. Os suprimentos do bote acabam e ambos passam fome. O tigre vê alguns peixes na água e salta para tentar caçá-los, mas não consegue. Tudo o que vê é a boia de Pi, então começa a nadar em direção a ele. Pi se desespera e começa a remar para chegar ao bote. Pi sobe no bote e o tigre fica na água, agarrado à embarcação, mas sem conseguir subir sozinho. Nesse momento Pi vê o tigre fragilizado e impotente, e tem o ímpeto de matá-lo, mas da mesma maneira que ocorreu quando ele era criança no zoológico, ele olha nos olhos do tigre e vê um amigo, não um inimigo. Pi se vê nos olhos do tigre. O ego percebe que a sombra não é seu adversário. Pi percebe que ele não pode matar o tigre, pois o ego não sobrevive sem a sombra. São dois lados da mesma moeda. Ele então auxilia o tigre a retornar ao bote, e volta para sua boia. O rapaz, contudo, entende que precisa aprender a lidar com o tigre para que ele também possa sobreviver. Pi começa a manipular o bote, deixando-o paralelo às ondas, assim o balanço é maior e o tigre fica mareado. Ele começa a entender que o ego precisa se fortalecer, em detrimento da sombra, para que ambos possam coexistir. Pi consegue, então subir no barco enquanto Richard Parker está muito enjoado, e tenta marcar seu território. Busca mostrar ao tigre que no bote tem que caber os dois. Mas ele tenta fazer isso, a princípio, na força. Ele urina no bote e grita para o tigre, que ruge e urina em Pi. Piscine, então, aprendeu que não conseguiria entrar em harmonia com o tigre usando a força. O ego não deve subjugar a sombra. Pi aprende, aos poucos, a alimentar o tigre para que este não o visse como uma fonte de alimento. Ele aprende a pescar e começa a dividir o alimento com o tigre, fazendo com que este respeite a presença dele no bote e vice-versa. Ego e sombra começam uma convivência respeitosa. Pi e Richard Parker, contudo, com o tempo, foram ficando desnutridos, exaustos, quase moribundos. Nesse momento, que ocorre após uma grande tempestade que abalou enormemente ambos, Pi finalmente toca o tigre. Ele coloca a cabeça de Richard Parker no colo e pede desculpas. Nesse momento ele faz as pazes com Deus. Logo em seguida eles encontram uma ilha. Após os eventos que ocorreram na ilha (abordados na próxima sessão), ambos retornam ao bote e depois de ficar muito tempo à deriva, ficando novamente quase moribundos, eles chegam a terra firme. Eles descem da embarcação e Richard Parker, ainda cambaleando, entra na floresta em frente sem se despedir de Pi, sem ao menos olhar para trás. Quando Pi estava saindo de mudança com a família para o Canadá ele não se despediu de Anandi, sua namorada. Ele não fez isso porque queria voltar a encontrá-la, não queria que a história deles tivesse um desfecho. Quando o tigre, depois de tudo que eles passaram juntos, vai embora sem ao menos olhar para trás, sem se despedir, Pi disse que aquilo foi o que mais doeu nele. Achou que o tigre não demonstrou consideração pelo que vivenciaram. Contudo, como o tigre faz parte de Pi, como o tigre é sua sombra, é impossível que ela se despeça do ego, isso porque ela nunca irá embora verdadeiramente. A sombra nunca será integrada integralmente. A sombra é um constructo do inconsciente. Ao entrar na floresta, simbolicamente, a sombra “retornou” ao inconsciente. Partes dela foram integradas à consciência, auxiliando a jornada para a individuação, mas parte dela sempre será inconsciente e sempre estará presente. Por isso, e por mais que tenha doído em Pi, o tigre não poderia ter se despedido. Assim como Pi queria se reencontrar com Anandi após a viagem e não se despediu dela, o ego vai sempre reencontrar a sombra, por isso não pode se despedir dele. Pi diz no filme que se não fosse Richard Parker, ele teria morrido. Da mesma maneira, nossa sombra possui grande carga de energia psíquica necessária para o adequado desenvolvimento de nossas vidas. Nossa sombra possui importância vital em nossa estrutura psíquica. A sombra, por si só, deve ser vista de maneira positiva, pois ela é um portal de acesso a todas as experiências transpessoais mais profundas (WHITMONT apud ZWEIG e ABRAMS, 1991). Segundo Miller (apud ZWEIG e ABRAMS, 1991), parafraseando Jung, 90% da sombra é ouro puro.
Aspecto muito importante no filme é o surgimento de uma ilha em um momento em que Pi e o tigre já haviam perdido as esperanças de se salvarem. Ambos estavam extenuados, desiludidos, quando o bote chega a uma ilha no meio do oceano. Antes de se falar da ilha propriamente dita, é importante descrever um acontecimento da noite anterior. Nessa noite de muita calmaria, após uma grande tempestade, Pi e o tigre colocam as cabeças para fora do bote e começam a olhar para a água. Eles olham para baixo, para o fundo do mar. Nesse momento, sua visão se aprofunda e acontece uma grande sequencia de imagens. Esse momento representa, simbolicamente, um mergulho de Pi em seu inconsciente. Ele inicia uma viagem nas profundezas do oceano, ou da sua inconsciência, como se o Self, grande maestro de nossa estrutura psíquica, quisesse mostrar algo ao rapaz. Quando olham para o mar, percebem a sua grandeza e a profundidade. Veem uma variedade de animais estranhos, mas também fascinantes. No final dessa visão ele vislumbra a silhueta de uma mulher hindu, sua namorada, Anandi. Seu olhar, então, se volta para o barco e ele percebe que tudo aquilo está, na verdade, dentro dele. Nesse momento ele entra em contato com sua anima. A anima é um elemento do inconsciente que, dentre outras funções, fornece vitalidade e força ao ego. É uma força vital básica (STEIN, 2006, pg. 117). Não foi por acaso que em um dos momentos de maior desesperança e sofrimento enfrentado por Pi, ele entra em contato com sua anima. O Self parece ser o grande regente desse encontro. Anima significa o componente feminino em uma personalidade masculina (SANFORD, 1986, pg. 12). Ela representa um nível de inconsciente mais profundo que a sombra (STEIN, 2006, pg. 116), e isso fica bem claro no filme quando a visão de Pi se aprofunda no oceano e vai encontrar Anandi lá no fundo. Após esse primeiro contato com a anima, no dia seguinte eles encontram a ilha. O elemento feminino é visto, em muitas ocasiões, como elemento redentor (VON FRANZ, 1984, pg. 43). Aspecto interessante é que a ilha possui um formato antropomórfico, se assemelha a uma silhueta de mulher. Nesse local eles encontram comida e água. A ilha fornece nutrição e conforto aos dois. Essas são características arquetípicas femininas, o que nos indica que a ilha é outro simbolismo da anima de Pi. Segundo Von Franz (1984, pg. 50), o elemento feminino se acha mais próximo da natureza, atuando como fator de salvação. Em um primeiro momento, a ilha os acolhe e os protege. Entretanto, a ilha também possui o lado negativo do arquétipo da grande mãe, ela é devoradora. O elemento feminino está muito próximo do sombrio, do maléfico (VON FRANZ, 1984, pg. 43). Eles aprendem que à noite suas águas inicialmente potáveis, por algum processo químico, transformam-se em ácido. Enquanto está em cima de uma árvore, se protegendo dessa ameaça, Pi encontra uma flor, que se assemelha muito a uma flor de lótus. Dentro da flor ele encontra um dente humano. Nesse momento ele entende que não pode permanecer na ilha. Ele não pode viver na anima. Ele deve aproveitar os aspectos positivos da anima para se fortalecer e continuar a sua jornada. Essa flor no formato de lótus parece estar relacionada com uma passagem inicial do filme. Quando Pi conhece Anandi, ele estava tocando um instrumento musical em uma aula de dança em que estavam várias mulheres, e ela estava presente. Ela fazia uma dança muito bonita, uma dança que parecia contar uma história. Após a aula, Pi conversa com Anandi e pergunta o que significa determinado gesto que ela fez com as mãos. Ela explica que aquilo era uma flor de lótus nascendo no meio da floresta. Então Pi questiona o que uma flor de lótus faria em uma floresta, tendo em vista que ela costuma nascer em terrenos pantanosos. Ele fica sem resposta. Essa cena na ilha, em que ele encontra um dente humano dentro de uma espécie de flor de lótus, encontrada em uma árvore, parece responder ao questionamento inicial do protagonista. A flor de lótus é outro elemento feminino, relacionado à anima. Após encontrar essa flor que ele viu o quanto a ilha podia ser perigosa, ele tomou consciência desse aspecto letal, e entendeu que precisava continuar sua viagem.
Deus e a religiosidade possuem lugar importante no filme. No começo da narrativa de Pi, ele diz ao jornalista que vai contar uma história que o fará acreditar em Deus. Na psicologia analítica, o arquétipo do Self é, em muitas ocasiões, comparado a Deus, nosso Deus interior. A vivência do Self pode ser sentida psicologicamente como o “Deus dentro de nós” A psicologia analítica apresenta o conceito de Self, ou Si-mesmo, como o arquétipo da totalidade, o centro regulador da psique, encarregado de guiar o processo de individuação. Segundo Stein (2006, pg. 158), a força impulsora do processo de individuação é o Si-mesmo. O Si-mesmo é transcendente, ou seja, não é definido pelo domínio psíquico, nem está contido nele, situa-se além dele e o define. Ele é mais do que a subjetividade da pessoa, formando a base para o que no indivíduo existe de comum com o mundo (STEIN, 2006, pg. 137). Assim, percebe-se o quanto esse conceito acaba sendo, por vezes, comparado ao conceito de Deus. O Self, assim como algumas concepções que se possui de Deus, rege vários aspectos de nossa vida. É um saber superior, maior que nossa consciência. O Self direciona nossas vidas. Nesse sentido, simbolicamente, é possível traçar uma analogia do Self com Deus. Assim, dada a relação central que Pi possui com Deus e as religiões, o filme nos mostra que o Self é o eixo central de nossas vidas. Pi sempre foi interessado por assuntos religiosos. Ele possuía um pai muito racionalista e cientificista, que dizia que a religião representava a escuridão. O pai ensina aos filhos para não aceitarem tudo cegamente, que seria melhor seguir algo com o qual não concorda, do que aceitar as coisas sem fazer um julgamento de valor. Mas Pi possuía essa curiosidade e necessidade íntima de buscar algo fora de si, algo superior. Ele era hindu, devido à influencia da mãe. No hinduísmo ele diz ter encontrado a fé. Ele também se dizia católico, devido à influência de um padre que conheceu e serviu de tutor a alguns dos seus questionamentos. No cristianismo ele diz ter encontrado o amor. Posteriormente, Pi também adere ao islamismo, por curiosidade. Como mulçumano, ele diz ter encontrado a tranquilidade. Assim, ele se tornou um hindu-cristão-mulçumano, e conseguiu apaziguar várias inquietações que carregava dentro de si. Pi aprendeu que a fé era uma coisa viva, uma casa cheia de quartos. Quando ainda estava no navio, na noite do naufrágio, Pi saiu de seu quarto e foi ao convés, pois estava havendo uma tempestade e ele queria ver o que estava acontecendo. Nesse convés, ele fica tomando chuva e começa a desafiar Deus para que ele mandasse mais chuva, que aquilo ali não era nada. Então o navio não resiste e começa a afundar. Como Pi estava no convés, desafiando a tempestade, fora de suas acomodações, ele conseguiu sair do navio e se salvar. Após o naufrágio do navio, Pi começa uma conversa mais frequente com Deus. Às vezes ele pedia proteção, outras vezes agradecia, em outras ficava irado e brigava com Ele. Inicialmente ele sente culpa, tanto por ter desafiado Deus, quanto pelo fato de não ter conseguido salvar sua família. Depois esse contato passa a ser mais desesperado, suplicando que Deus o ajudasse. Ele busca entender o que Deus quer com ele. No dia anterior ao encontro com a ilha, acontece outra grande tempestade no oceano. Nesse momento, Pi e o tigre já estavam no limite de seus forças. Quando a tempestade chega, Pi se amarra no barco e desafia a tempestade, desafiando novamente Deus. Ele grita muito, pede para a tempestade vir mais forte. É um comportamento de desespero, de quem acha que não tem mais nada a perder, mas ao mesmo tempo, se entregando à vontade superior. O bote, que inicialmente estava coberto por uma lona, é descoberto por Pi. Nesse momento ele e o tigre ficam sem proteção nenhuma, e a chuva castiga bastante os dois. Contudo, Pi vê que Richard Parker está sofrendo, que aquilo é muito para ele. Então ele percebe que ele não está sofrendo sozinho. O ego não está sofrendo sozinho as adversidades que o Self colocou no seu caminho, sua sombra e tudo mais também são influenciados pelo Si-mesmo. Pi começa a cobrir novamente o bote, protegendo o tigre. Ele pede desculpas ao animal, a água toma conta de quase tudo. Nesse momento ele se entrega e o inconsciente toma conta, ele desmaia e dorme. No dia seguinte ele tem o contato com a anima e, depois, encontra a ilha. Esses eventos mostram o ego se submetendo ao Self, após confrontá-lo. O Self é uma força muito maior que o ego e a nossa personalidade, ele é maior que a individualidade. Contudo, é nosso guia no processo da individuação, está sempre ao nosso lado, e após o ego ter se colocado no seu lugar e entendido o valor do Self, este último o auxilia, fazendo-o entrar em contato com sua anima revigoradora.
Podemos fazer paralelos claros do filme com nossas vidas. Assim como Pi, nós também queremos saber o que Deus quer de nós. Queremos saber o que está reservado a cada um de nós. O nosso Self, ou Si-mesmo, é a parte da psique que conhece boa parte dessas respostas, e, como propulsor do processo de individuação, tenta nos guiar para encontrarmos as respostas. Assim, a individuação é o tornar-se o que a pessoa já é potencialmente, mas de um modo mais profundo e consciente (STEIN, 2006, pg. 158), ou seja, carregamos dentro de nós muito do que precisamos para o pleno desenvolvimento de nossas vidas. O processo de individuação é uma forma de maturação e de autorrealização da personalidade. Caracterizando-se pela harmonização, pelo consciente, de aspectos do inconsciente, sem haver, contudo, a identificação com quaisquer desses aspectos. É um processo de transformação individual que visa uma maior adaptação do indivíduo, em relação às suas realidades interna e externa. O alcance da plenitude da nossa personalidade é um fim em si mesmo. Esse caminho para a individuação deve ser para o próprio bem da pessoa e não apenas para ela se sentir melhor ou dormir melhor (VON FRANZ, 1984, pg. 56). Esse processo consiste em tornar alguém feliz consigo mesmo e não em alguém se tornar feliz como em um jardim de infância (VON FRANZ, 1984, pg. 87), uma vez que essa última felicidade é advinda quase que totalmente da inconsciência. A felicidade consigo mesmo não implica um estado de alegria pleno e constante, mas uma grande aceitação das possibilidades e das impossibilidades individuais. Devemos lembrar que a profunda unidade interior, em nível consciente é uma proeza rara (STEIN, 2006, pg. 157). Isso porque não se pode chegar perto do Self e do significado da vida, sem que se passe pelas trevas e pelos aspectos sombrios da personalidade (VON FRANZ, 1984, pg. 71). O processo da individuação é penosos, cansativo, exigente, tal como ficar à deriva em um barco com a presença de um tigre. Segundo Jung (OC 9/1, pg. 288): [O processo de individuação] É o velho jogo do martelo [consciência] e da bigorna [inconsciente]; entre eles, o paciente ferro é forjado num todo indestrutível, num individuum. É algo que devemos ter cuidado, pois é um caminho com perigos, onde podemos ser possuídos por complexos do inconsciente, como a sombra ou a ânima/ânimus. Não é um processo de absorção ou de submissão ao inconsciente. Na individuação há um reconhecimento consciente da limitação do ego e uma clara percepção dos poderes do inconsciente, tornando-se possível a união desses opostos. Nessa união as partes continuam diferenciadas, mas contidas na consciência (STEIN, 2006, pg. 165). Para Jung, o processo de individuação precisa do coletivo, da sociedade. Contudo, um dos primeiros passos da individuação é o isolamento, a reclusão; onde são criados novos valores próprios que podem ser devolvidos ou entregues, então, à sociedade (JUNG, OC 18/2, pgs. 25 e 26). A Vida de Pi parece retratar esse movimento em que nos recolhemos e nos confrontamos com nossos fantasmas interiores. Mas o contato com o outro é essencial para o encontro do Si-mesmo, pois é no outro que podemos nos enxergar, e fazemos isso por meio das nossas projeções.
Richard Parker
Considerações finais A Vida de Pi é uma obra de arte muito bonita e impactante. Podemos aprender muito, imageticamente, sobre os processos de lidarmos com o inconsciente a fim de alcançarmos uma plenitude de nossas personalidades. Deve-se enfatizar que o filme deve ser analisado apenas como analogia a parte do processo de individuação. Jung fala que esse processo dura uma vida, sendo que na primeira metade da nossa vida o foco seria a estruturação do ego e da persona, quando nossa visão está voltada para fora, para buscarmos nosso lugar no mundo. Na segunda metade da vida, nossa visão volta-se para dentro, o Si-mesmo surge de maneira mais clara e buscamos uma harmonia interior. As pessoas começam a buscar mais um sentido da vida nessa segunda metade de suas existências. Pi cresceu buscando o sentido de sua vida. Ele teve que passar por várias perdas, por um caminho árduo e penoso para que pudesse conhecer a si mesmo de maneira mais profunda. As representações simbólicas que a psique criou foram uma forma de sobrevivência psíquica. Após o naufrágio, Pi viu assassinatos dentro do bote, inclusive o de sua mãe. A psique transformou esses eventos em algo menos pessoal e mais simbólico, de uma maneira muito bonita, para autopreservação individual. Tanto é que Pi fala ao repórter que ele pode escolher a história que preferir, e o mesmo escolhe a história com os animais. Beleza igual foi a forma com a qual o filme lidou com a questão do enfrentamento da sombra e dos aspectos inconscientes. O relacionamento de Pi com o tigre é algo de grande aprendizado para nós. A sombra não pode ser subjugada, a anima não pode ser esquecida e o Si-mesmo deve ser respeitado. O inconsciente não pode ser absorvido nem suprimido, pois ele pode voltar-se contra nós (STEIN, 2006, pg. 168), e o filme mostra isso de maneira muito clara. Em relação ao Self e a religiosidade, presente em todo o filme, vale lembrar o que diz Von Franz (1984, pg. 70): “quando há uma perda do ponto de apoio religioso, a pessoa se desintegra, torna-se presa fácil de afetos”. E esse aspecto também fica muito claro no filme, pois nos momentos em que Pi mais enfrenta o Superior, ele é castigado, ele sofre. Mas, esse mesmo agente que o faz sofrer, mostra-lhe o caminho a ser seguido. Uma última análise a ser feita do filme é em relação à sua cena final. Ela mostra, de maneira colorida, o tigre entrando na floresta após eles terem chegado a terra firme. Depois que o tigre adentra a floresta, a imagem fica em preto e branco. Esse é um grande simbolismo de que a fantasia acabou. O que resta a Pi, nesse momento, é lidar com a realidade externa. O inconsciente colorido presente em sua psique, e em todo o filme, continua com ele, mas agora mais conhecido, mais integrado. O preto no branco mostra que agora ele tem que conviver com a realidade externa e a interna, tal como o desafio proposto por Jung no caminho para a individuação.
Referências
HOPCKE, R. H. Guia para a Obra Completa de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2012. JUNG, C.G. O eu e o inconsciente (OC 7/2). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. _________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo (OC 9/1). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. _________. Aion – estudo do simbolismo do si-mesmo (OC 9/2). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. _________. A vida simbólica (OC 18/2). Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. MILLER, W. A sua sombra dourada. In.: ZWEIG, C. e ABRAMS, J. (orgs.). Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 1991. SANFORD, J. A. Parceiros invisíveis: o masculino e o feminino dentro década um de nós. São Paulo: Paulinas, 1986. STEIN, M. Jung: o mapa da alma: uma introdução. São Paulo: Cultrix, 2006. VON FRANZ, M.L. A individuação nos contos de fada. São Paulo: Paulus, 1984. WHITMONT, E. C. A busca simbólica. In.: ZWEIG, C. e ABRAMS, J. (orgs.). Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 1991.
Resumo: Este artigo pretende destacar um dos mais dramáticos personagens criados pela magia do cinema e pela cabeça do cineasta da alma humana (como é chamado o sueco Ingmar Bergman), a Dra. Jenny Isaksson, psiquiatra casada, que em meio a uma grave crise existencial, volta a casa em que viveu na infância com seus avós, e ao se sentir impossibilitada de conviver com suas visões e culpa assustadoras tenta o suicídio, revisitando os sonhos sua infância traumática e ao ver a morte face a face, passa, auxiliada por um terapeuta/amigo, por um processo catártico que a leva a se reorganizar internamente, indo do caos a um estágio que pode-se entender como o inicio de seu processo de individuação.
Liv Ullmann e Bergman durante as filmagens de Face a Face.
Introdução Face a Face, filme dos anos 70 do diretor sueco Ingmar Bergman, não é um filme qualquer. De todos os filmes desse extraordinário cineasta, talvez seja esse o mais visceral deles e, certamente, um dos poucos com um olhar tenuemente otimista, ao registrar a curva de vida da ambígua personagem central Jenny Isaksson, médica psiquiatra, que vai enfrentar a maior batalha interna que um ser humano pode ter: o confronto com seus traumas de criança (criada que foi pela avó autoritária em função da morte precoce dos pais), seus medos abissais da velhice e da morte, vivenciar o seu lado sombrio, e o embate com a gigantesca culpa que a persegue e que é materializada por uma velha senhora de negro, que sem uma palavra, a enfrenta olho no olho, desde uma das primeiras cenas, na casa dos avós. Culpa de que? Entre tantas, a de não ter atendido aos desmedidos anseios e expectativas desses avós que a criaram (e que não se importavam em trancá-la num armário escuro quando não atendia a essas cruéis expectativas). De, na infância, não ter se posicionado a favor do frágil pai alcoólatra que tanto amava, nos embates dele com a mãe e a já mencionada e arrogante avó, travestida de boa cuidadora. Culpa por não amar de fato sua filha adolescente. De trair o marido, de ter tido prazer numa tentativa de estupro, e mais...
Por circunstâncias profissionais, ela volta a casa desses avós para assumir temporariamente a direção de uma clínica, uma oportunidade única para o real confronto com o medo da morte e da velhice, e porque não, a partir de um ponto onde já não há mais retorno, se reorganizar internamente, se reinventar; dramática história essa, que poderá levá-la ao processo de individuação. Apesar de dizer que está sempre bem, ela deixa escapar que “quando se deixam as coisas como estão, elas ficam como estão”. E pouco a pouco os “esqueletos” de sua infância começam a sair do armário. Em grande parte do filme, Jenny e a figura quase onipresente da já citada senhora de negro que traduz a grande culpa da personagem, se medem num jogo de olhares (ameaçadores por parte da anciã) e de medo por parte do personagem central. Também, em uma das primeiras cenas, há imagens que ligam essa culpa ao desenho de um leão (não por acaso para Jung uma figura de poder), como também a imagem de uma flor de lótus, que nas diversas mitologias, representa o símbolo de transformação espiritual e metamorfose, desenho esse localizado num vitral pouco iluminado na escada dessa temível casa.
Mas, o filme está apenas começando, e antes que a Dra. Isaksson (interpretada pela atriz sueca Liv Ullmann, que Bergman dizia ser seu stradivárius), se liberte desse sufocante casulo que é a sua angustiada vida (angustia essa metaforicamente também representada pela velha senhora e pela casa onde passou a sua infância), vai ter que ir vertiginosamente às profundezas de sua escuridão pessoal, passando por crises histéricas, depressivas e de insônia, que a levam a uma desesperada tentativa de suicídio, quando pelos sonhos (que são de grande importância neste filme), passa por um processo catártico de revisão e ressignificação de sua infância traumática, emergindo então com uma outra roupagem psíquica. Ao partir para o enfrentamento de seus temores, fantasmas, erros, sua sombra, e com a mão amiga de um médico (mix de amigo/namorado/ terapeuta), se reergue e sai em busca dessa coisa maior que rege todo ser humano, que é o Self e porque não, do seu processo de individuação.
Face a Face (capa)
A atriz Liv Ullmann (que Bergman dizia ser seu Stradivárius), no filme Face a Face pelo qual foi indicada ao Oscar em 1976.
O fio condutor que antevê a sua crise pessoal e que a leva a já citada tentativa de suicídio, são seus sonhos, sempre eles... Vestida de vermelho, a criança que ela foi, percorre todos os espaços daquela aterradora casa, sem coragem de entrar no temido armário escuro (onde era trancada quando desobedecia a avó), o que de fato acontece no sonho final no leito do hospital, em que esse armário vira seu próprio caixão, com uma Jenny criança implorando aos gritos para não ser enterrada. Gritos esses em vão, pois pregos e martelo vedam seu esquife. Logo ela própria já adulta, ateia fogo ao seu ataúde, queimando o corpo da criança que ela foi. Fogo esse que não por acaso, também simboliza transformação, metamorfose e renascimento na alquimia, como também na velha lenda da Fênix, a águia que incendiada, renasce das cinzas.
Sobre esse lugar escuro, diz Jung na obra “Seminários sobre Sonhos de Crianças (p.104), que para todas as crianças o porão negro é um lugar sinistro. A consciência é frequentemente representada a partir da casa, e o porão é aquele lugar escuro onde perdemos a consciência, o lugar onde acontecem as coisas que mais tememos, aquilo que não conhecemos. A escuridão seria o lugar onde nos sentimos sozinhos, de onde vêm os sonhos ruins, onde o perigo nos ronda e, na fantasia de uma criança, esse espaço é onde acontecem fatos obscuros e misteriosos. A analogia entre o porão e o armário escuro onde Jenny foi trancada é clara.
Sobre o objetivo dos sonhos, diz ainda Jung na obra acima citada (p.18), que “o sonho representa a reação inconsciente frente à situação consciente. Uma determinada situação consciente é seguida por uma reação do inconsciente na forma de um sonho, trazendo conteúdos que - de modo complementar ou compensatório - apontam claramente para a impressão que se obteve durante o dia. Diz ainda que os sonhos representam uma determinada situação, que certamente é fruto do conflito entre consciência e inconsciência, em que essa inconsciência tem como objetivo modificar uma atitude consciente.
Face to Face (Face a Face)
Após o caos, a tempestade e a noite negra, Jenny volta talvez pela última vez àquela casa, encontra os avós frágeis e no embate final com a morte próxima, e agora, com aparente serenidade desce aquela mesma escada do inicio do filme na qual a velha senhora de negro (que como já dito representa a culpa), já não está mais lá. Apenas o vitral com a flor de lótus já aparece iluminado pela luz de um novo dia. Depois da desordem, talvez ela esteja pronta para essa odisseia que é a segunda metade da vida. E o que é a segunda metade da vida parar Jung senão o processo de individuação, de encontro com o Self?
Como diz Connie Zwig no artigo “O Feminino Consciente: Nascimento de um Novo Arquétipo,“ que integra a obra Espelhos do Self, “as mulheres são feitas, não nascem prontas. Sem terem atravessado as labaredas da individuação, algumas permanecem meninas. Despreocupadas e talvez descuidadas, ficam ainda atadas a seus ideais da infância, à promessa da perfeição, ao sonho do potencial humano sem limites. Ficam boiando na superfície, sem contato com as profundezas, repletas de sorrisos otimistas mas, incapazes de suportar o peso da responsabilidade, as tensões do compromisso, a sóbria realidade da idade adulta”.
Vale destacar que o universo Bergmaniano em toda a sua obra, é caracterizado por personagens que vivem dramas existenciais complexos e quase sempre, emocionalmente analfabetos. Jenny, numa das cenas se questiona “será que ficarei aleijada emocionalmente a vida toda”? Ingmar Bergman é de fato um cineasta com temática universal, construtor que é de personagens atemporais, que traduzem à perfeição a natureza humana e seus muitos matizes. Como Jung, ele também é europeu, filho de pastor luterano, e teve uma educação autoritária e rigorosa por parte dos pais. Jung nasceu no século XIX, ele na segunda década do Século XX. Ambos trazem em suas obras a fragilidade humana e a necessidade da presença acolhedora do outro.
Ligar a Dra. Jenny Isaksson, a personagem central do filme Face a Face (psiquiatra na faixa dos 35/40 anos, uma filha adolescente com um casamento e carreiras a principio consistentes) ao processo de individuação do ser humano, que é uma tarefa repleta de dificuldades que nem todos conseguem trilhar”, como diz Jung, não é empreitada das mais simples. Sim, falar desse percurso que é a individuação é sabidamente complexo e mais, enxergar esse passo a passo num personagem editado pelo cinema em menos de duas horas, não é de fato tão simples, mesmo nos complexos, ambíguos e imprevisíveis personagens de Bergman, o cineasta da alma humana como é constantemente definido.
Jenny, após tantos sonhos, alucinações e crises de angustia e depressão, começa a admitir a si mesma e ao Dr.Tomas Jacobi (médico psiquiatra, amigo e terapeuta), que é infiel, que não tem grande afinidade com o marido e a filha, Mais, diz a ele gostaria que a tentativa de estupro da qual foi vitima, tivesse de fato se concretizado, que tem verdadeiro horror ao cheiro da velhice e que se sente culpada por não ter correspondido a tantas e tantas expectativas. Aos poucos vai sendo tomada pelo seu lado mais sombrio, vai ao fundo do poço e tenta o suicídio.
Após ser salva pelo médico/amigo, traz simbolicamente em sonhos todo o seu passado assustador, e numa cena antológica, faz um processo catártico em que interpreta com todas as nuances, não só a criança que foi, como a despótica avó e todas as suas cobranças e ameaças. Nesse ponto, a criança do passado é tomada pelo medo, vai às profundezas do Hades, e então pouco a pouco se reconcilia com o passado, e vai em busca do pote de ouro do arco-íris psíquico, que é o encontro com o Self, esse constructo teórico misterioso e intangível, que imprime sua totalidade em nossa vida psicológica, conforme vamos nos desenvolvendo, e que é algo que vai além do ego que nos rege, e vai muito, mas muito além do eu.
Render-se ao Self, só se torna realidade quando interagimos com as diversas forças internas, nos reconhecemos e nos apropriamos delas, e conferimos a ele, o Self, a oportunidade de se encarnar na nossa existência. Talvez seja mais fácil reconhecê-lo nos momentos de dor e de sofrimento, desde que se enxergue nesse sofrimento uma razão maior, uma lição para a vida. O Self se apresenta como a imagem do divino, participando das qualidades de uma meta transcendente, constituindo-se dessa forma como um alvo móvel em cuja direção nos encaminhamos para nos individuar.
Face a Face (Serie de TV Sueca)
Desenvolvimento
Trazendo Jung para esse contexto, vale destacar que Nise da Silveira diz em “Vida e Obra de Jung” que para ele, o passo a passo do processo de individuação exige a integração de diversos elementos, tais como a sombra, animus/anima, desfazer projeções, bem como desvestir as diversas personas, ampliar a consciência, e também desenvolver suas potencialidades, processo esse que se constitui no principal eixo da sua psicologia. Diz mais: “para que se tome de fato consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos”.
Todo ser tende a realizar o que existe nele em germe, a crescer, a completar-se. Esse caminho funciona na natureza e também vale para o homem, quanto ao corpo ou a psique. No humano, o desenvolvimento de suas potencialidades é impulsionado por forças instintivas inconscientes. Nós não somente somos capazes de tomar consciência desse desenvolvimento, como também, temos a capacidade de influenciá-lo. Essa ação contínua é o que se chama de processo de individuação, e não é um percurso fácil nem linear. Trata-se sim, de um movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico, o si mesmo ou Self. Quando o consciente e o inconsciente vêm ordenar-se em torno dele, a personalidade completa-se, sendo ele o centro da psique, como o ego é o centro do campo do consciente.
O conceito (diferentemente do processo) de individuação de Jung é claro: trata-se da tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas, mas não é de maneira alguma chegar a um patamar de perfeição e sim, a um estado de completude. O que seria então completar-se ou completude? Seria uma espécie de administração do fardo de conviver conscientemente com tendências opostas e até irreconciliáveis, mas inerentes à natureza humana, sejam escuras ou claras, sem conotações rígidas de bem ou mal. Para a personagem de Face a Face, médica respeitada e a principio bem casada, essa contradição é explicitada diversas vezes, mas vale destacar a maneira cruel como se refere à velhice e aos velhos, seu mais que “burocrático” desempenho como mãe e esposa, e sua vontade de que o estupro do qual quase foi vitima, tivesse de fato acontecido, e mais, o prazer que sentiu naquele momento.
Liv Ullmann em Face a Face.
Mas é bom destacar que não podemos confundir individuação com individualismo. O individualismo está ligado à realização das particularidades de sua natureza. Já o processo de individuação traz a ideia de se considerar componentes coletivos da psique humana (conteúdos do inconsciente coletivo), o que ao contrario da individualidade, traz como consequência positiva, um melhor funcionamento do homem dentro da coletividade, o que certamente não fomenta, como já dito, sentimentos orgulhosos e privilégios individualistas.
Todo esse processo passa por uma condição absolutamente vital, que é a de nos voltarmos para o nosso corpo que é a nossa terra, para que dentro desse corpo possamos então sintonizar a nossa singularidade e peculiaridade. Caso contrário, ficaremos flanando nas correntezas da vida. Outra condição para que a individuação ocorra, é o registro por parte de outros, pois só quando é percebida e registrada ela se materializa.
DeBus, autor do artigo “O Self é um Alvo Móvel: O Arquétipo da Individuação”, em outro dos artigos que compõem a obra Espelhos do Self, organizada por Christine Downing, traz ainda uma outra definição para o termo Self, “como um substrato inconsciente, cujo verdadeiro expoente na consciência é o ego, que está para o Self como o que se move está para aquilo que o desloca, como o objeto está para o sujeito, porque os fatores determinantes que provém do Self cercam esse ego por todos os lados e, portanto, lhes são sobre ordenados” (pg.38). “Não sou eu que me crio, mas, sim, eu aconteço a mim mesmo”. Ainda no mesmo artigo, o autor diz que para Jung, o ego é um dos muitos complexos no qual ocorrem sentimentos e pensamentos, e retém uma ilusão que dá origem a sentimentos e pensamentos. É apenas uma mera ilusão, uma vez que o Self vem destroná-lo durante o processo de individuação, que como a própria palavra insinua, traz a ideia de que é chegar a um acordo com a nossa própria natureza. É se ouvir, se escutar...
Esse caminho para a individuação vai aos poucos desafiando o ego a mover-se numa direção desconhecida, em lugar de permanecer prisioneiro dos hábitos e movimentos familiares desconstruindo assim nossa identidade costumeira. O personagem de Bergman sai da situação de quase imobilidade, auxiliada pelo amigo/terapeuta, e vai para uma posição ou lugar que ainda não tinha ido antes, a de questionadora de valores pessoais, de se mostrar de fato como é, uma mãe que não tinha dado de fato afeto à filha, preconceituosa com a velhice, uma profissional quase burocrática, “sem conseguir dar as palavras certas aos pacientes”, como ela diz, e infiel ao marido. Se a angustia é a fala entupida, ao explicitar seus reais sentimentos, Jenny está no caminho certo.
Como já citado, uma vida pessoal na qual o Self não atua, corre o risco de ficar estagnada. Ele vai então nos desafiar com a perspectiva da individuação, quando geralmente em determinada fase da segunda metade da vida, começamos a ter uma sensação de desconforto. É um processo que exige uma ampliação ou alargamento do que chamamos de personalidade.
No curso dessa individuação, nossa vida passa então a ser “governada” por um centro de gravidade e organização, que inclui as realidades transpessoal e inconsciente. Mesmo quando o Self se estabelece e toma conta, seu modo de governar nossa vida pessoal vai se modificando à medida que avançamos esse mais que delicado processo de individuação, fato que pode ser verificado pela maneira como praticamos o poder nas nossas relações, ou seja, pela influencia desse Self, vamos abandonando ou mesmo modificando nossas projeções em nome do amadurecimento.
Aos poucos, nos harmonizamos com a natureza do cosmo na medida correta. Ele, o Self, age por trás dos nossos anseios de relação, levando a uma hegemonia que implica no sacrifício de tudo aquilo que pensávamos ser. Move-se da periferia da nossa vida psicológica em direção ao seu centro. Para a maioria das pessoas o Self começa a exercer seu efeito de centração, de individuação, tanto nos planos consciente como inconsciente, lá pelo meio da vida, como citado anteriormente.
A dor e o perigo inerentes ao processo de individuação se tornam absolutamente necessários. Com base em imagens de sonhos, imagens de contos de fadas, mitos e opus alquímico e em outras produções do inconsciente e em observações pessoais e de seus clientes Jung citado por Nise da Silveira na obra (Jung Vida e Obra), destaca as principais etapas do processo de individuação. O menos complexo deles talvez seja o reconhecimento e o processo de desnudar-se ou mesmo, de desvestir as inúmeras personas que se adquire ao longo da vida. Não é desfazer é desvestir. É claro que as personas são muito uteis no sentido de estar devidamente ajustado as convenções coletivas, a ação de apresentar-se mais como os outros desejam e menos, bem menos, de como se é de verdade. “Eu sei que devo fazer sempre o que você manda, porque tenho sempre a consciência pesada. Eu sei que fiz tudo errado, desculpas. Sou a menininha da vovó, a queridinha da vovó, com ela estou sempre protegida” diz a menina que foi Jenny a avó em um dos seus reveladores sonhos...
O termo persona vem do grego. Eram mascaras que os atores usavam, para representar seu papel. Pode sim representar um sistema útil de defesa, mas o perigo é o de o ego consciente se identificar excessivamente com essa “defesa”, fazendo com que o individuo fusione-se com a sua persona, não tendo mais capacidade racional de separar-se ou mesmo desvestir-se dessa “casca”. Quando a mascara usada nas relações é retirada, aparece então uma face desconhecida, que traz a tona componentes também desconhecidos que formam um aspecto pessoal escuro e ignorado, que nos assusta e do qual fugimos, a nossa sombra.
Tal sombra psicológica faz parte da nossa personalidade, contendo elementos que não aceitamos em nós, que reprimimos e por isso mesmo, projetamos no outro, seja nosso parceiro, no vizinho, ou mesmo uma figura símbolo que demonizamos.
Se não entramos no quarto escuro, não sabemos de fato o que tem lá dentro. Lançar luz sobre esse quarto escuro pode ser libertador, pode ampliar a nossa consciência, e é exatamente isso que Jenny Isaksson faz quase trinta anos depois ao entrar em sonho naquele armário escuro que tanto temia. Aí nem sempre é o outro que está errado, descobrimos uma trave no nosso próprio olho. Nos sonhos, a sombra é personificada por atores coadjuvantes, julgados sem expressão, mas num processo analítico conduzido com seriedade, devem de fato ser considerados e ampliados seja por elementos da mitologia ou da alquimia. A sombra é uma massa espessa, de componentes aglomerados de pequenas fraquezas, aspectos considerados inferiores pelo contexto social, por emoções imaturas, complexos reprimidos e forças genuinamente maléficas. Mas existem também nessa massa espessa, traços positivos, qualidades valiosas que não se desenvolveram devido a condições contextuais e externas desfavoráveis naquele momento e, também por não termos consciência da nossa sombra e por ser tão difícil para nós penetrá-la.
Depois de travar conhecimento com a própria sombra, outra tarefa mais complexa se apresenta, reconhecer a anima e o animus. Anima seria a porção feminina inconsciente no homem, definida por Jung como “a representação psíquica da minoria de gens femininos presentes no corpo do homem”. Essa feminilidade inconsciente, indiferenciada, inferior, manifesta-se no dia a dia por despropositadas mudança de humor ou mesmo caprichos. Compõem também a anima, as experiências fundamentais que o homem teve com a mulher através dos milênios.
Face to Face 1976
Jenny Isaksson no hospital, após a tentativa de suicídio.
Basta destacar que o primeiro receptáculo da anima é a mãe, que faz dela aos olhos do filho, um ser mágico. Depois essa anima se transfere para as estrelas da musica, cinema e de forma particular para a mulher com a qual o homem vai se relacionar amorosamente, provocando os complicados enredamentos do amor e das decepções causadas pela impossibilidade do objeto real corresponder plenamente à imagem oriunda do inconsciente, transferência essa que nem sempre se processa de modo satisfatório. Se a retirada da imagem da anima no primeiro receptáculo não se constituir de forma adequada, também não será constituída de forma adequada na figura da esposa e amante.
Na primeira metade da vida a anima projeta-se de preferência no exterior, sobre seres reais, estando presente na problemática do amor, ilusões e ambém das desilusões. Já na segunda metade da vida, o jogo dessas projeções vai se esgotando, e a mulher reprimida dentro do homem vai assumindo a função de trazer a ele leveza, fragilidade, gentileza e sensibilidade. O homem forte preso no constructo do masculino, que nunca se fragiliza, estará sempre amuado. A anima torna-se função psicológica da mais alta importância, porque faz uma ponte na relação com o mundo interior, na qualidade de intermediária entre o consciente e o inconsciente e função de relacionamento exterior, na qualidade de sentimento conscientemente aceito.
Neste artigo é importante abordar mais detalhadamente o ânimus, que também é a masculinidade existente no psiquismo da mulher. Essa masculinidade também é inconsciente e manifesta-se de modo ordinário, como intelectualidade mal diferenciada e simplista. Com frequência vemos mulheres sustentarem afirmações e pontos de vista que não resistem a qualquer exame lógico, mas são defendidas teimosamente e acirradamente. O animus opõem-se à própria essência da natureza feminina, que busca antes de tudo, um relacionamento afetivo. Sua hipertrofia resultará em um humor aguerrido, querelante.
O animus condensa as experiências que a mulher vivenciou nos encontros com o homem no curso de milênios, e a partir desse imenso material inconsciente, ela modela ou mesmo idealiza a imagem do homem que procura. Por analogia a anima, o primeiro receptáculo do animus será o pai, transferindo-se depois para o mestre, o ator, o esportista, projetando então sobre ele, uma imagem ideal, que não resiste à convivência e as comparações do cotidiano, e logo vêm as decepções. .
As relações entre o homem e a mulher acontecem nesse espaço quase fantasmagórico que é a interface entre anima e animus. O animus assume personificações de contos de fada, mitos e outras produções em formas de animais, monstros, demônios, príncipes, criminosos, heróis, feiticeiros e homens brutos.
O animus nos seus aspectos positivos tem funções importantes a realizar, como mediar o inconsciente e consciente, similar ao papel desempenhado pela anima no homem. Se integrado de forma adequada pelo consciente, dá a mulher a capacidade adequada de reflexão, autoconhecimento e gosto pelas coisas do espírito. Há alguns elementos no filme, que nos permitem afirmar que Jenny não desenvolveu de forma adequada seu animu. Os homens de sua vida são figuras indiferentes, ausentes ou frágeis, como o pai, o avô e até mesmo o marido.
Nos sonhos surgem então as primeiras figurações desse centro profundo da psique. Nos sonhos femininos, o Self revela-se em forma de figuras femininas superiores, das quais emana benevolência, tais como a sacerdotisa, a deusa mãe, a deusa do amor. Nos sonhos masculinos assume o aspecto do velho sábio, do mago ou mestre espiritual, do filosofo. Essas personificações são dotadas de grande potencial energético, causando ao sonhador uma impressão duradoura de maravilhamento. Self não é só centro profundo, é a totalidade da psique. Repetindo o que já foi citado, o processo de individuação e o caminhar rumo ao Self, passam por uma série de requisitos já listados e também pelo sofrimento e pela dor. A personagem de Bergman enfrenta ao longo da vida uma pesada via crucis, onde não falta muita angústia, dor, inadequação aos papéis que dela exigiam (como o de mãe dedicada e amorosa), medo, ira e sofrimento, muito sofrimento.
Reconhecer e assimilar a própria sombra, enfrentar e dissolver complexos construídos ao longo da vida, exterminar ou pelo menos diminuir as projeções, são aspectos que aliados à descida às trevas abissais e ao confronto quase que apocalíptico entre o consciente e inconsciente, vão fatalmente ampliar o mundo interior, resultando numa nova personalidade não mais centrada apenas no ego. O centro dessa nova personalidade estabelece-se agora com o Self, essa força energética que englobará todo o sistema psíquico.
Que consequências terá essa nova personalidade na vida de um individuo? A totalização do ser, já não mais fragmentado interiormente. Não se reduzirá a um ego aprisionado dentro de estreitos limites. Os valores serão agora mais vastos, e os prazeres e sofrimentos serão vivenciados num nível mais alto de consciência, sem a maquiagem que um dia foi absolutamente necessária. Esse individuo torna-se então um ser completo, composto de inconsciente e consciente, que inclui aspectos claros, escuros, masculino, femininos, com a harmonização de aspectos antes opostos e irreconciliáveis. Aqueles que não se diferenciam, e uma significativa parte dos indivíduos não trilha essa odisseia, permanecem obscuramente envolvidos numa trama de projeções, confundem-se, fusionam-se com outros e são levados a agir em total desacordo consigo mesmo, vivenciando um permanente estado neurótico.
Bergman
Conclusão
Foram as experiências pessoais de Jung que o levaram a teorizar sobre o processo de individuação. Vivendo intensamente todas as fases, ele observou em algum momento, que o curso do desenvolvimento da personalidade de seus analisandos, seguia um roteiro parecido, progredindo em relação ao centro, a um núcleo energético que se revelava no intimo da psique, o Self. Na obra de sua maturidade “Resposta a Jó” (pg.111), diz que no processo de individuação, são tantos os elementos obscuros que vêm à luz, que a personalidade é como que radiografada, ao mesmo tempo que a consciência ganha em amplidão e percepção. Mais, fala que a “a confrontação entre a consciência e o inconsciente faz com que a luz brilhe nas trevas, e não somente seja compreendida pelas trevas, como também as compreenda”.
No artigo “Ser e não Ser: Eis a questão”, publicado no Jornal O Globo, o médico psicanalista Carlos Vieira diz que “compreendemos desde cedo que temos um corpo, uma mente, uma origem, pais, filogênese, mas isso não significa de modo automático, que temos ou adquirimos uma identidade própria” Para ele, “a vida começa num grito de socorro, numa ventania, numa angustia, como na busca de um alume que nos proteja da precariedade da nossa condição humana. Começa aqui a necessidade do outro para sobreviver. Se os nossos pais nos dão a vida, um nome e sobrenome, não nos dão a nossa personalidade. Se constituir é um processo próprio e permeado de angustia”. Em algum momento das nossas vidas, teremos que abdicar das ações que engendramos para sermos amados, e vamos em busca do risco, na procura do terreno até então desconhecido.
Ainda no mesmo artigo, Moraes diz que “Zorba o Grego, personagem daquele famoso filme, afirma que “para ser livre é preciso ser louco”. Não aquela loucura insana, mas uma loucura criativa, emancipatória, ousada, que cria e nos faz ter uma identidade própria, sem ser o filho de alguém, o neto do fulano de tal, mantendo aqueles pactos perversos familiares que nos fazem obedientes por escutarmos desde cedo que teremos tudo o que desejarmos (desde que e só se) obedecermos às ordens e aos ideais e anseios quase sempre deles, daqueles que nos comandaram ou ainda comandam”. Diz mais, “não fomos consultados se concordávamos com tantas expectativas que não foram concebidas ou construídas por nós”. Felizmente muitos se libertam dessas imposições cruéis e buscam se constituir e se individuar com os riscos que essa nova posição traz, com o quantum de incerteza que esse movimento do salto sem rede requer...
Na singular obra do sueco Bergman, a Dra. Jenny Isaksson vai pouco a pouco fazendo um grande “acerto de contas” com seus algozes (que em ultima instancia são seus medos, fantasmas, sua sombra e a enorme culpa que carrega), se expõe visceralmente ao amigo/terapeuta, externa sua dor que explode e a leva à tentativa de suicídio, é possuída pelo medo da morte e pelo horror ao cheiro da velhice, pela revolta, pela dor, pela culpa e, numa catarse que quase a leva a morte, segue em busca de vivenciar o segundo ato do resto da sua vida, já mais consciente de suas fraquezas, mais inteirada de sua real e ambivalente natureza, conciliando opostos, ciente de que não tem o amor da filha nem a solidariedade do marido quase ausente. Só pode contar de fato com ela mesma no caminho de sua individuação. Renascida literalmente das cinzas no catártico sonho final, essa nova Jenny parte então para se tornar real, como diz, e para “acabar de viver o que lhe cabe, sua vida, para que não mais existam amores servis”, como fala a poesia O Amor, de Vladimir Maiakovski... log
Referências Bibliográficas
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(*) O autor é psicólogo com especialização pelo Instituto Junguiano de Brasília, e aluno da Primeira Turma de Formação de Analistas do IJBsB.