sábado, 16 de setembro de 2017

A POSSIBILIDADE DO SONHAR SOCIAL EM C. G. JUNG

Matriz do Sonhar Social

Pelo Dr. Roque Tadeu Gui


O sonho é a porta pequena e oculta no interior e no mais íntimo da psique, que se abre à noite primordial que era psique quando não havia ainda a consciência do eu, e que permanecerá psique para muito além daquilo que uma consciência do eu jamais poderá alcançar.... Tudo o que é consciência separa, mas no sonho entramos no mais profundo, mais geral, mais verdadeiro e mais eterno do homem que ainda está no lusco-fusco da noite primitiva, quando ele ainda era o todo e o todo ainda estava nele, quando o eu se identificava com a simples natureza.(Jung, 1934/1993, p. 142)


    Seria exaustivo repetir aqui o enorme acervo de referências sociais e coletivas associadas aos sonhos mencionadas ao longo da vasta obra de Carl Gustav Jung (1875-1961). Limitar-me-ei a analisar aspectos do arcabouço teórico junguiano que apontam para a possibilidade de um sonhar social.
    A evidência mais expressiva dessa possibilidade na obra de Jung talvez sejam os depoimentos a respeito de sonhos e visões que lhe ocorreram nos anos de 1913 e 1914, envolvendo o futuro imediato dos países europeus e, mais genericamente, de todo o mundo. Trata-se de antecipações oníricas dos acontecimentos relativos à eclosão da Primeira Grande Guerra. Diz Jung (1975) no livro autobiográfico, escrito em parceria com sua colaboradora Aniela Jaffé, “Memórias, Sonhos, Reflexões”:
______________________
Texto adaptado da tese de doutorado do autor, “Matriz do sonhar social: um dispositivo de intervenção em psicologia clínica” (Cap. II), Universidade de Brasília (UnB), 2010. Entende-se “sonhar social” como o processo onírico individual que ganha sentido social ao ser compartilhado e elaborado em um contexto psicossocial específico, dispositivo ao qual se denominou “matriz do sonhar social”, expressão traduzida do inglês “social dreaming matrix” e cunhada por Wallace Gordon Lawrence e Patricia Daniel (Lawrence, 1998). O presente artigo busca ressaltar a importância do trabalho de C. G. Jung para o desenvolvimento das ideias do “sonhar social”. Para um detalhamento das hipóteses do sonhar social, e do dispositivo desenvolvido para a apreensão do significado social dos sonhos compartilhados – a matriz do sonhar social –, remeto o leitor interessado ao trabalho acima citado.  

Por volta do ano de 1913, a pressão que até então sentira pareceu deslocar-se para o exterior, como se algo pairasse no ar. Efetivamente, a atmosfera parecia-me mais sombria do que antes. Não parecia tratar-se de uma situação psíquica, mas de uma realidade concreta. Esta impressão tornava-se cada vez mais intensa. No mês de outubro, viajando sozinho, fui subitamente assaltado por uma visão: vi uma onda colossal cobrir todos os países da planície setentrional, situados entre o Mar do Norte e os Alpes. As ondas estendiam-se da Inglaterra à Rússia, e das costas do Mar do Norte quase até os Alpes. Quando atingiram a Suíça, via as montanhas elevarem-se cada vez mais, como para proteger nosso país. Acabava de ocorrer uma espantosa catástrofe. Eu via vagas impetuosas e amarelas, os destroços flutuantes das obras da civilização e a morte de inúmeros seres humanos. O mar transformou-se em torrentes de sangue. Essa visão durou cerca de uma hora. Perturbado, nauseado, tive vergonha de minha fraqueza. (p. 156)

Em “Memórias”, o autor nos diz que a visão repetiu-se duas semanas depois e as imagens de sua visão permaneceram vívidas nos meses seguintes. Jung julgava que essas visões estariam relacionadas com uma ameaça de psicose, não lhe ocorrendo, então, a possibilidade de uma guerra de dimensões planetárias que estava por eclodir. No início do verão de 1914, um sonho repetiu-se por três vezes, em abril, maio e junho de 1914. No terceiro sonho da série, “um frio monstruoso, que parecia provir dos espaços cósmicos, havia invadido a Terra.... No dia 1º de agosto estourou a Guerra Mundial. Minha tarefa pareceu-me então claramente definida; devia tentar compreender o que se passava e em que medida minha própria experiência estava ligada à comunidade” (Jung, 1975, p. 157).
    Jung certamente foi um dos primeiros pensadores da musicological do inconsciente a aludir à possibilidade de um inconsciente compartilhado, seja na forma de um “inconsciente coletivo”, como preferem os junguianos, seja na forma de um “inconsciente social”, como desejam psicanalistas de orientação culturalista ou social, tais como Foulkes (1967), Fromm (1992) e Hopper (2006), seja, ainda, na forma de um “inconsciente comum e compartilhado”, proposto por grupo-analistas contemporâneos (p. ex., Käes, 2004 e Neri, 1999).


O inconsciente coletivo

    Na epígrafe que abre este texto, de intenso sabor poético, Jung expõe sua concepção de inconsciente e de sonho. Para o autor, o inconsciente tem características do “infinito”, do “incomensurável”, do “ilimitado”, do que antecede o surgimento e sucede o desaparecimento da consciência. O sonho é a ponte que propicia a ligação entre a consciência finita e limitada do eu e as profundezas de um inconsciente que excede amplamente as experiências biográficas recalcadas, estendendo-se a conteúdos psíquicos germinais daquilo que ainda está por emergir à consciência. Para Jung, a consciência enraíza-se nas profundezas originais de uma psiquê transpessoal, entendendo-se aqui o “transpessoal” como aquilo que transcende a particularização dos indivíduos mas que também a antecede e a sustenta. 
    As divergências singulares apresentadas pelos sonhos em relação à consciência mostrarão a Jung que o inconsciente tem suas próprias regras e um funcionamento independente. A essa peculiaridade dá o nome de autonomia do inconsciente (Jung, 1928/1991, p. 295). Dessas profundezas abissais, fundamento de todas as manifestações psíquicas, nasce o sonho, por mais infantil, grotesco ou imoral que pareça à consciência.
Jung marca perceptivelmente suas diferenças em relação à visão freudiana de inconsciente em sua crítica da visão dos sonhos como “restos diurnos”. Antecipa discussões muito atuais sobre o inconsciente como originador de ideias, como continente dos pensamentos à espera de um pensador que os pense, como o “conhecido não-pensado” (Bollas, 1997). E, mais, fonte de inspiração e de aconselhamento à consciência. Ressalta, ainda, a positividade do inconsciente ao comparar o conceito de receptáculo de conteúdos recalcados, tal como proposto por Freud, com o conceito de inconsciente como matriz de novas possibilidades: “Tudo o que o espírito humano criou, brotou de conteúdos que, em última análise, eram germes inconscientes” (Jung, 1927-1931/1991, p. 379).
    Mas, em que sentido se pode falar de uma atividade positiva do inconsciente? Jung dirá que o inconsciente aparece como “a totalidade de todos os conteúdos psíquicos in statu nascendi” (Jung, 1927-1931/1991, p. 379). A repressão pode perturbar essa função criadora natural e essa perturbação pode ser considerada a fonte mais importante das enfermidades psíquicas. Desse ponto de vista, o inconsciente é fonte de energia criadora que pode ser perturbada pela repressão. A repressão produziria “escoamentos psíquicos falsos”, irradiando-se para outros domínios psíquicos e fisiológicos. Até aqui Jung concorda com as teses psicanalíticas de Freud`. Discordará, contudo, quanto ao sonho ser considerado apenas um sintoma desses “escoamentos”. Para ele, o sonho tem uma dimensão criativa e “uma atividade criativa só pode ser entendida a partir de si mesma” (Jung, 1927-1931/1991, p. 380). 
    O reconhecimento de que existem conteúdos inconscientes que estabelecem exigências e influências com as quais a consciência deve se confrontar, com boa ou má vontade, é, segundo Jung, a principal contribuição da Psicologia Analítica a uma cosmovisão moderna: “Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e completos em nosso ato criativo” (Jung, 1927-1931/1991, p. 394).
    O nome de Jung está definitivamente associado à visão de um inconsciente transpessoal que, além de ser expresso ao longo de sua obra com nuances poéticos, foi objeto de definições mais precisas. Jung dirá, então, que o inconsciente coletivo é uma dimensão da psiquê que se distingue do inconsciente individual e que, portanto, não é uma aquisição pessoal. O inconsciente pessoal é constituído por conteúdos que já foram conscientes e que desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, tal como Freud enunciou. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, nunca estiveram na consciência e devem sua existência à hereditariedade psíquica. O inconsciente pessoal é povoado pelos complexos enquanto que o inconsciente coletivo é constituído pelos arquétipos (Jung, 1936/2000, p. 53).  
Lembremos que os complexos são estruturas psíquicas dotadas de forte carga afetiva e que ligam entre si representações, pensamentos e lembranças. As ideias isoladas relacionam-se entre si pelas diferentes leis de associação, embora sejam selecionadas e agrupadas em combinações mais amplas pelo afeto.
Por outro lado, é conhecida a relevância atribuída aos “arquétipos” no quadro teórico junguiano. Jung parte do princípio de que os seres humanos, tal como outros animais, possuem uma psiquê pré-formada de acordo com sua espécie. Argumenta que é impossível conhecer a natureza das disposições psíquicas inconscientes, mediante as quais o homem é capaz de agir humanamente. Essas disposições apresentam-se como “imagens” que expressam a forma da atividade a ser exercida e, simultaneamente, a situação típica na qual ocorre a atividade. Essas imagens são próprias do ser humano e Jung as denomina “imagens primordiais”:

[Essas imagens] são peculiares à espécie, e se alguma vez foram “criadas”, a sua criação coincide no mínimo com o início da espécie. O típico humano do homem é a forma especificamente humana de suas atividades. O tipo específico já está contido no germe. A ideia de que ele não é herdado, mas criado de novo em cada ser humano, seria tão absurda quanto a concepção primitiva de que o Sol que nasce pela manhã é diferente daquele que se pôs na véspera. (Jung, 1939/2000, pp. 89 e 90)

Jung enfatizará reiteradamente, ao longo de sua obra,  que o que é herdado não são as ideias, mas as formas, elementos vazios que representam uma faculdade pré-formativa e não uma representação. Uma “imagem primordial” ou “arquétipo” só pode ser determinada quanto ao seu conteúdo no caso de tornar-se consciente e, nesse caso, assumirá o conteúdo que lhe for emprestado pelo contexto sociocultural em questão.

O sonho, uma porta pequena...

    Da ideia de um inconsciente generativo, matriz e continente de possibilidades em devir, surge o caráter compensatório dos sonhos característico da teoria junguiana. Caráter compensatório às atitudes e às formas de compreender, de pensar e de sentir conscientes. O sonho acrescenta à situação psicológica consciente os elementos insuficientemente considerados, ou até mesmo ignorados, e que possibilitam uma nova perspectiva às questões vividas pelo sonhador (Jung, 1928/1991).
    Os sonhos podem ser abordados a partir de duas perspectivas: causal ou final. A primeira implica a pergunta: Por que tive este sonho? A segunda, para que tive este sonho? O ponto de vista causal tende à uniformidade de sentido, uma vez que busca as causas dessa produção onírica específica. O ponto de vista final vê na diversidade das apresentações simbólicas do sonho a expressão de uma situação psicológica que se modificou. Decorre daí a importância atribuída às imagens oníricas em si mesmas, tendo cada uma delas sua significação pertinente ao contexto do sonho. Embora valorizando o ponto de vista final, Jung, no entanto, admite que a conjugação dos dois pontos de vista “pode levar a uma compreensão mais completa da natureza dos sonhos (Jung, 1928/1991, p. 252). 
    O pensamento onírico é uma forma filogenética do pensamento (Jung 1928/1991). Da mesma forma como o organismo humano conserva os traços de sua evolução filogenética, assim se dá também com o espírito humano. Os sonhos comunicam em linguagem sensorial e imaginativa “pensamentos, julgamentos, concepções, diretrizes, tendências” que se encontram inconscientes por terem sido recalcados ou simplesmente negligenciados pela consciência. Os conteúdos inconscientes apresentados pelo sonho são aqueles que foram selecionados e reunidos associativamente em função do estado momentâneo da consciência. É necessário, portanto, conhecer a exata configuração da consciência no preciso momento do sonho porque o material inconsciente constela-se em correlação com o estado momentâneo da consciência: “O sonho retifica a situação e acrescenta o material que ainda lhe está faltando, e, deste modo, melhora a atitude do paciente. Eis aí a razão pela qual temos necessidade da análise do sonho em nossa terapia” (Jung, 1928/1991, pp. 255 e 256).   
    Os sonhos preservam o sono apenas na medida do possível, tal como proposto por Freud, mas o interrompem sempre que o conteúdo compensador apresenta-se particularmente intenso e vital para a orientação da consciência. Quanto mais unilateral apresentar-se a atitude consciente, tanto maior será a probabilidade da emergência de sonhos que contrastam com a orientação da consciência. Os sonhos estão a serviço, portanto, da auto-regulação psicológica do indivíduo (Jung, 1928/1991, p. 258).  
    Embora fortemente impressionado pela função compensatória dos sonhos, Jung não descarta outras possibilidades de compreensão dos sonhos, tal como aquela defendida por Freud (1900). Adverte não haver um único método, “tecnicamente organizado”, que conduza a  resultados infalíveis, pois, que se houvesse tal método, o sentido do sonho estaria definido de antemão. O sonho perderia, então, o atributo “tão útil aos objetivos psicológicos” de oferecer novas perspectivas para o sonhador (Jung, 1934/1993, p. 147).
    A teoria compensatória dos sonhos representa a regra geral para as pessoas que vivem em condições externas e internas razoavelmente equilibradas, representando o sonho um dispositivo, por assim dizer, de ajuste. Contudo, quando o indivíduo se afasta excessivamente da norma, apresentando uma atitude consciente inadaptada, seja objetiva, seja subjetivamente, a função compensatória do inconsciente dá lugar à função prospectiva, capaz de conduzir a atitude consciente para uma direção diferente da atual e que seja mais adequada às circunstâncias do sonhador.
     “A função prospectiva é uma antecipação, surgida no inconsciente, de futuras atividades conscientes, uma espécie de exercício preparatório ou um esboço preliminar, um plano traçado antecipadamente” (Jung, 1928/1991, p. 261). Tais sonhos resultam da combinação de possibilidades incipientes que podem, eventualmente, concordar com o curso dos fatos; percepções, sentimentos e pensamentos que escapam à consciência podem, então, ganhar forma e expressão onírica, oferecendo possibilidades prognósticas não capturáveis por meio das informações conscientes. “A maioria das situações críticas ou perigosas tem longo tempo de incubação; só a consciência nada sabe disso. Os sonhos podem revelar o segredo. Muitas vezes o fazem, mas muitas vezes também parecem não fazê-lo” (Jung, 1961/1998, p. 211).



Rodeando os sonhos
O sonho é sua própria interpretação.
(Talmude)
   
    Tal como Freud, Jung reconhecia que não se pode empreender nenhuma interpretação sem a colaboração do próprio sonhador:

As palavras que compõem o relato de um sonho não têm apenas um sentido, mas muitos. Se alguém sonha, por exemplo, com uma mesa, estamos ainda bem longe de saber o que a palavra “mesa” do sonho significa, embora a palavra “mesa” em si pareça suficientemente precisa. Com efeito, há qualquer coisa que ignoramos, e é que esta “mesa” é precisamente aquela mesa à qual estava sentado o pai do sonhador, quando lhe recusou qualquer ajuda financeira posterior e o expulsou de casa como um sujeito imprestável. A superfície lustrosa desta mesa está ali diante de seus olhos, como o símbolo de uma inutilidade catastrófica tanto no estado de vigília, como nos sonhos noturnos. Eis o que o sonhador entende por “mesa” [...] Qualquer pessoa que não estava presente a esta cena pode duvidar de que a “mesa” representa um momento culminante e doloroso na vida do sonhador. Mas o sonhador não duvida nem eu também. É claro que a interpretação do sonho é, antes e acima de tudo, uma experiência que só tem um significado imediato e evidente para duas pessoas. (Jung, 1928/1991, pp. 293 e 294)

    O texto acima ilustra de maneira simples o modus operandi do processo de associação na busca de significado para o sonho, bem como o fato de que o sonho faz sentido especificamente para a dupla – analista e analisando – que se debruça no processo de exame. Aqui se pode perceber significativa conexão com as ideias do sonhar social: a reconstituição do contexto social propiciada pelo processo associativo de vários contextos subjetivos em busca do significado social do sonho. Para Jung, o continente analítico, comparado frequentemente com um vaso hermético (têmenos ) no qual ocorrem as transformações psíquicas – metáfora alquímica ao gosto de Jung – cria condições para que a equação pessoal de cada participante da dupla analítica e os contextos subjetivos se articulem, se conjuguem, na geração de um significado que é evidente e faz sentido para a dupla.
Contudo, Jung manifestará desconfiança em relação à livre associação como caminho para a compreensão dos sonhos: “Por meio da livre associação chega-se às ideias críticas e ocultas, não importando o ponto de partida, seja ele sintomas, sonhos, fantasias, letras cirílicas ou quadros de arte moderna. Em todo caso, este fato nada diz sobre sonhos e seu verdadeiro significado. Indica simplesmente a existência de um material pronto para a associação que circunvagueia livremente” (Jung, 1961/1998, p. 192). Em outro lugar: “Quero saber o que os sonhos têm a dizer sobre os complexos e não quais são eles. Quero saber o que o inconsciente de um homem está fazendo com os seus complexos. Eis o que decifro nos sonhos” (Jung,  1935/1998, p. 96).
    Propõe, então, concentrar-se no próprio texto do sonho como sendo aquilo apresentado pelo inconsciente. Um método será necessário: aproximar-se e rodear as imagens do sonho, como forma de examiná-las sob diversas perspectivas. A livre associação representaria o risco de afastar-nos cada vez mais da imagem onírica. O lema “voltar ao sonho”, sempre que a cadeia associativa ameaçava distanciá-lo das imagens oníricas, tornou-se parte de sua maneira peculiar de compreensão do sonho: “O sonho limita-se a si mesmo. Ele é seu próprio critério para o que dele faz parte e para o que dele se desvia” (Jung, 1961/1998, p. 195).

O melhor é tratar um sonho como se fosse um objeto totalmente desconhecido: deve-se olhá-lo de todos os lados, tomá-lo nas mãos, levá-lo de cá para lá, despertar todo tipo de fantasias sobre ele, falar dele com outras pessoas. Os primitivos contavam sempre seus sonhos impressionantes e, quando possível, em reuniões públicas; este costume também é encontrado na Alta Antiguidade, pois todos os povos antigos atribuíam grande importância ao sonho. Tratado assim, o sonho sugere todo tipo de associações que nos levam mais próximos de seu significado. A constatação do significado é naturalmente – se assim podemos dizer – um assunto muito arbitrário, pois é na interpretação que começa a aventura. Limites mais apertados ou mais elásticos serão fixados de acordo com a experiência, temperamento e gosto de cada um.... A explicação encontrada vai orientar-se espontaneamente por certos pressupostos... (Jung, 1934/1993, p. 147)

O texto citado nos revela a curiosa perspectiva adotada por Jung no exame dos sonhos: primeiro, o vagar imaginativo em torno das imagens oníricas, com uma atitude de quem se coloca diante do desconhecido, abrindo-se às diversas associações; depois, a relativização dos possíveis significados a serem atribuídos aos sonhos: o sentido dependerá da intenção e expectativa do intérprete, ou seja, orientar-se-á pelas concepções adotadas pelo intérprete. Este ponto de vista sugere mais um ponto de contato com os pressupostos do sonhar social  que coloca entre parênteses, em suspensão por assim dizer, a crença no caráter estritamente pessoal do sonho, dando espaço para que surjam os significados sociais. Poderíamos, então, parafrasear Jung e dizer: – Se quisermos, portanto, investigar o nosso ser social, ou seja, nossa existência sociopolítica, os sonhos podem ser meios adequados.
Para interpretar os produtos do inconsciente e, dentre estes, os sonhos, Jung lançava mão de um procedimento que ia além do processo de associação livre proposto pela Psicanálise: a amplificação. De acordo com a natureza do caso, não os reduzia, como Freud, ao pessoal, mas colocava-os em analogia com símbolos da mitologia, da história comparada das religiões e de outras fontes, para conhecer o sentido que eles pretendiam exprimir (Jung, 1930/1989). O método permitia uma compreensão nova dos conteúdos do sonho e da fantasia, articulando as tendências arcaicas, incompatíveis com a consciência, com a personalidade consciente. Esta articulação correspondia à crença de que o objetivo final do esforço terapêutico consistia em reduzir a dissociação entre consciente e inconsciente característica dos neuróticos e de muitas pessoas normais. Este método vem ao encontro da concepção do inconsciente como fonte instintiva e continente da natureza pré-histórica do ser humano, aprofundando-se até o nível animal, além de conter as sementes criadoras do futuro, bem como a fonte de todas as fantasias construtivas. A dissociação neurótica, portanto, significaria o distanciamento da consciência da própria fonte da vida.
Sobre o método da amplificação Jung dirá em uma das conferências realizadas em 1935 na The Tavistock Square Clinic , de Londres:

Adoto o método do filólogo [em consonância com o fato de considerar o sonho como um texto escrito em uma linguagem própria e desconhecida] que está longe de ser livre associação, aplicando um princípio lógico – a amplificação, que consiste simplesmente em estabelecer paralelos. Por exemplo, no caso de uma palavra muito rara, com a qual nunca antes nos defrontamos, tenta-se encontrar passagens de textos paralelos, se possível, aplicações paralelas, onde a palavra ocorra. Aí tentamos colocar a fórmula que adquirimos através dos conhecimentos de outros textos frente à passagem que nos trouxe dúvida. Se ela tiver, então, se tornado legível, poderemos dizer: “Agora é fácil compreendê-la”. Foi assim que aprendemos a ler hieróglifos e inscrições cuneiformes, dessa mesma forma poderemos ler os sonhos. (Jung, 1935/1998, pp. 96 e 97)
   
    Como veremos no tópico dedicado a explorar o modus operandi da matriz do sonhar social, a técnica da amplificação é utilizada de maneira a desdobrar as associações surgidas na matriz, relacionando-as a eventos fatuais, culturais, históricos e artísticos, dentre outros possíveis, para compor o quadro compreensivo sobre as circunstâncias sociais nas quais os participantes vivem.


Os grandes sonhos
    
    Jung observou que certos povos ancestrais distinguem “grandes sonhos” e “pequenos sonhos”. Em linguagem contemporânea falar-se-ia de sonhos “significativos” e sonhos “banais” (Jung, 1928/1981, p. 298). Os “pequenos sonhos” são aqueles que se referem ao âmbito subjetivo pessoal e seu significado situa-se na esfera da vida pessoal do sonhador. Promovem ajustes no equilíbrio psíquico, quase sempre passam desapercebidos e são esquecidos com facilidade.
    Ao longo de anos de análise de milhares de sonhos, Jung constatou o aparecimento de sonhos que continham motivos mitológicos, ou seja, uma combinação peculiar de ideias e imagens encontradas igualmente em mitologias de diferentes povos. Cogitava que esses sonhos detinham um caráter coletivo, indicando um sentido comum (inconscientemente compartilhado, portanto) a toda a humanidade (Jung, 1934/1993, p. 148).
Em seu contato com povos da África Oriental, Jung constatou que os chamados “grandes sonhos” só podiam ser sonhados por pessoas notáveis, como por exemplo, feiticeiros e chefes. Para os elgonyi, que vivem nas florestas do Elgon, por exemplo, os pequenos sonhos não têm importância alguma. Porém, quando alguém sonha um “grande sonho”, convoca a tribo para contá-los (Jung, 1928/1981, p. 168).
    E como saber se o sonho é “grande” ou “pequeno”? Um sentimento intuitivo de sua importância significativa convence o indivíduo que não deve guardá-lo para si. Sente que precisa contá-lo, supondo, de um modo psicologicamente correto, que o sonho é importante para todos. “Os processos do inconsciente coletivo não dizem respeito apenas às relações mais ou menos pessoais do indivíduo com sua família, ou com um grupo social; dizem respeito à comunidade humana em geral” (Jung, 1928/1981, p. 168). A despeito dessas observações de Jung, a teoria incipiente do sonhar social advoga a possibilidade de que “pequenos sonhos”, ou seja, aqueles referentes a questões comumente vistas como “pessoais”, podem apontar para questões compartilhadas por uma coletividade.
    A existência desses “grandes sonhos” não representa a negação de que as pessoas sonham a partir de si mesmas. A originalidade individual dos seres humanos repousa sobre uma base de semelhança universal. “Um sonho com sentido coletivo vale em primeiro lugar para o sonhador, mas exprime também que seu problema momentâneo pode ser o de outros” (Jung, 1934/1993, p. 148, destaques meus). Jung via nessa particularidade a importância prática para inúmeras pessoas que se sentem isoladas das demais, acreditando que os outros não têm os problemas que elas têm. Reconhecia, ainda, que os problemas individuais relacionam-se com o problema da época, de modo que questões subjetivas podem ser vistas sob a perspectiva das questões gerais da humanidade. Jung fazia a ressalva de que isso é válido apenas quando o sonho apresenta inequívoco simbolismo mitológico (Jung, 1934/1993, p. 148).
Jung e o sonhar social


        
    De acordo com Sonu Shamdasani (2005), historiador e comentador das ideias de Jung, a imaginação do público foi capturada pelas ideias junguianas em virtude da valorização dos “poderes proféticos e misteriosos do sonho”, sob uma formatação de teoria científica moderna (p. 118). De fato, as reflexões de Jung sobre os sonhos abrem espaço para uma multiplicidade de perspectivas sobre seu significado para a vida humana; essas reflexões estendem-se pela obra junguiana ao longo dos 60 anos de produção teórica. Diferentemente da obra freudiana na qual temos as considerações sobre os sonhos reunidas basicamente em dois volumes (IV e XXIII), nos quais podemos acessar as ideias fundamentais de Freud sobre o assunto, Jung nos oferece insights distribuídos ao longo de toda sua obra. Certamente, considerava o assunto em aberto e ainda amplamente enigmático.
    Jung (1912/1981) introduziu uma curiosa e significativa distinção entre “interpretação do sonho ao nível do objeto” e interpretação do sonho ao nível do sujeito”, a primeira referindo-se às expressões oníricas que podem ser remetidas a objetos reais e a segunda  relacionando cada um dos componentes do sonho ao próprio sonhador. Considera que aquela é analítica, pois “decompõe o conteúdo do sonho em complexos de reminiscências que se referem a situações externas”, e esta última, sintética, pois “desliga das circunstâncias externas os complexos de reminiscências em que se baseia e os interpreta como tendências ou partes do sujeito, incorporando-os novamente ao sujeito” (p. 76). Jung introduziu tais diferenciações para dar suporte e discutir as diferenças entre o método interpretativo analítico (causal-redutivo) e o método sintético (construtivo), este último considerado como instrumento de diagnóstico e, ao mesmo tempo, de prognóstico de desenvolvimentos psíquicos futuros. Interessa-nos aqui, para os propósitos de relacionamento das ideias junguianas com a base teórica do sonhar social, a ideias de “interpretação do sonho ao nível do objeto”.
Ocorre que a experiência dos acontecimentos externos  significa antes de tudo experienciar-se a si mesmo como sujeito que se defronta com as circunstâncias, possibilitando a interpretação ao nível do sujeito. Embora a matriz do sonhar social não se proponha o trabalho da dinâmica intrapsíquica dos sonhadores, é razoável supor que material social significante (na perspectiva dos participantes) mobilize aspectos subjetivos das personalidades individuais. Poderíamos, então, nos perguntar se um trabalho “ao nível do objeto” – na acepção aqui discutida – poderia ser importante elemento coadjuvante de um trabalho “ao nível do sujeito” realizado, por exemplo, no contexto de uma psicoterapia individual ou grupal. Com esta reflexão, podemos hipotetizar a existência de relações sinérgicas entre o trabalho do sonhar social e o trabalho clínico.     
    Sardello (1997) argumenta que a psicologia contemporânea lida com sujeitos que vivem em um mundo cuja concretude, continuidade e permanência, está se dissolvendo. A psicologia, tal como a conhecemos e praticamos atualmente, funciona porque “sentimos a segurança da concepção do mundo como um lugar literal, uma base sólida sempre presente que nos permite partir por um tempo em viagens interiores onde tudo tem uma qualidade onírica em constante movimento” (p. 27). O autor considera essa imagem do mundo ilusória, uma vez que o mundo possui uma dinâmica – uma “alma”, por assim dizer – que exige ser reconhecida. Este mundo não é um lugar de estabilidades e de cenários aos quais podemos simplesmente nos ajustar, mas um mundo vivo que nos surpreende, nos atemoriza e nos desafia. Diríamos, este é um mundo de circunstâncias. Talvez, a ideias de interpretação de sonhos ao “nível do mundo” – fazendo uso da acepção de nível do objeto proposta por Jung – encontre uma utilidade psicossocial como estratégia de reconhecimento e interação entre sujeito e mundo; os dispositivos baseados no sonhar social podem representar um recurso para tal estratégia (Gui, 2010).
    O conceito de inconsciente coletivo cunhado por Jung muitas vezes foi assimilado a ideias de inconsciente social ou cultural, principalmente pelos próprios junguianos. Os exemplos oferecidos por Jung, com suas visões e sonhos ocorridos às vésperas da conflagração da Primeira Grande Guerra, autorizaram uma compreensão do inconsciente coletivo “em camadas”, por assim dizer, indo desde os estratos mais superficiais do inconsciente individual, biográfico, passando por estratos intermediários relativos aos eventos sociais e culturais e chegando aos níveis mais profundos do inconsciente coletivo, lá onde reinam as formas arquetípicas. É o que uma discípula de Jung, Jolande Jacobi (1890 –1973), propõe com o seu esquema topológico, no qual estabelece a distinção entre os diferentes estratos da psiquê, permeados pela energia psíquica cuja fonte jaz nas profundezas do inconsciente (Jacobi, 1943).
    As ideias sobre o inconsciente coletivo suscitaram, ao longo da segunda metade do século XX, questões relacionadas com o conceito de “inconsciente social”, seja contrastando-o com o conceito junguiano, seja agregando novas considerações sobre a natureza das constrições sofridas pelo indivíduo a partir dos fatores históricos, políticos, sociais e econômicos. Autores psicanalíticos, já clássicos, como E. Fromm e S. H. Foulkes, e outros contemporâneos, como Earl Hopper e René Käes, tratam de fazer as distinções, estabelecendo os conceitos de inconsciente social, de inconsciente comum e compartilhado. Contudo, continuaremos a dever a Carl Gustav Jung os primeiros insights sobre a existência de uma esfera de comunicação e compartilhamento psíquico profundo que aponta para a possibilidade do sonhar social.   


Referências

Bollas, C. (1997). La sombra del objeto. Psicoanálisis de lo sabido no pensado. Buenos Aires: Amorrotu Editores. (Trabalho original publicado em 1987).

Foulkes, S. H. & Anthony, E. J. (1967). Psicoterapia de grupo. A abordagem psicanalítica. (R. Pontual, Trad.). Rio de Janeiro: Biblioteca Universal Popular. (Trabalho original publicado em 1957).

Fromm, E. (1992). A descoberta do inconsciente social: contribuição ao redirecionamento da psicanálise. (L. H. S. Barbosa, Trad.). São Paulo: Manole.  (Trabalho original publicado em 1990).

Freud, S. (1999). A interpretação dos sonhos. (W. I. de Oliveira, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1900).
0
Gui, R. T. (2010). Matriz do sonhar social: um dispositivo de intervenção em psicologia clínica. Tese de Doutorado, Universidade de Brasília, Brasília.

Gui, R. T.; Decnop Coelho, V. L. (2013). O sonhar social: uma experiência no Brasil. Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa. Out-Dez 2013, Vol. 29 n. 4, pp. 459-468. 

Hopper, E. (2006). Notes for lectures on the concepts of transference and countertransference in psychoanalysis, psychoanalytic grouppsychotherapy and group analysis. Disponível na internet em: <HYPERLINK "http://www.group.psychotherapy.com/articles/hoppere0l.doc"http://www.group-psychotherapy.com/articles/hoppere0l.doc>. Acessado em 20.04.2009.


Jacobi, J. (1943). The psychology of Jung. New Haven: Yale University Press.

Jung, C. G. (1975). Memórias, sonhos, reflexões. Trad. Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. (Trabalho original publicado em 1961).

Jung, C. G. (1981). Psicologia do inconsciente. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (M. L. Appy, Trad., 2ª ed., Vol. VII, pp. 1-110). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1912).

Jung, C. G. (1981). O eu e o inconsciente. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (D. F. da Silva, Trad., 2ª ed., Vol. VII, pp. 111-229). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1928). 

Jung, C. G. (1989). Introdução à “A Psicanálise” de W. M. Kranefeldt. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (L. M. E. Orth, Trad., Vol. IV, pp. 310-320). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1930).

Jung, C. G. (1991). Aspectos gerais da psicologia do sonho. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (D. M. R. Rocha, Trad., 2ª ed., Vol. VIII, pp. 241-286 ). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1928). 

Jung, C. G. (1991). Psicologia analítica e cosmovisão. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (D. M. R. Rocha, Trad., 2ª ed., Vol. VIII, pp. 373-396). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1927-1931).

Jung. C. G. (1993). A importância da psicologia para a época atual. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (L. M. R. Orth, Trad., Vol. X, pp. 133-151). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1934).

Jung, C. G. (1998).  Fundamentos da psicologia analítica. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (A. Elman, Trad., Vol. XVIII-I, pp. 15-185.).  Petrópolis: Vozes.  (Trabalho original publicado em 1935).

Jung, C. G. (1998).  Simbolos e interpretação dos sonhos. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (E.. Orth, Trad., Vol. XVIII-I, pp. 187-263).  Petrópolis: Vozes.  (Trabalho original publicado em 1961).

Jung, C. G. (2000). O conceito de inconsciente coletivo. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (M. L. Appy e D. M. R. F. da Silva, Trads., Vol. IX-1, pp. 51-63 ). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1936). 

Jung, C. G. (2000). Aspectos psicológios do arquétipo materno. In C. G. Jung, Obras Completas de C. G. Jung (M. L. Appy e D. M. R. F. da Silva, Trads., Vol. IX-1, pp. 85-116 ). Petrópolis: Vozes. (Trabalho original publicado em 1939).

Käes, R. (2004). A polifonia dos sonhos. A experiência onírica comum e compartilhada. (C. Berliner, Trad.). Aparecida, SP: Ideias & Letras (Col. Psicanálise Século 1). (Trabalho original publicado em 2002).

Lawrence, W. G. (Ed.) (1998). Social dreaming @ work. London: Karnac Books.

Neri, C. (1999). Grupo. Manual de psicanálise de grupo. (Rosana Bignami Viana de Sá, Trad.). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1995).

Sardello, R. (1997). No mundo com alma. Repensando a vida moderna (P. M. Soares, Trad.). São Paulo: Ágora. (Trabalho original publicado em 1992).

Shamdasani, S. (2005). Jung e a construção da psicologia moderna. O sonho de uma ciência. (Maria Silvia Mourão Netto, Trad.). Aparecida (SP): Idéias e Letras (Col. Psi-atualidades; 6). (Trabalho original publicado em 2003).

Tedlock, B. (1991). The new anthropology of dreaming. Dreaming. Journal of the Association for the Study of Dreams, Vol. 1, nº 2, 1991 [On line]. Disponível em
     HYPERLINK "http://asdreams.org/journal/articles/1-2tedlock1991.htm" http://asdreams.org/journal/articles/1-2tedlock1991.htm . Acessado em 17.07.2017.




 Texto adaptado da tese de doutorado do autor, “Matriz do sonhar social: um dispositivo de intervenção em psicologia clínica” (Cap. II), Universidade de Brasília (UnB), 2010. Entende-se “sonhar social” como o processo onírico individual que ganha sentido social ao ser compartilhado e elaborado em um contexto psicossocial específico, dispositivo ao qual se denominou “matriz do sonhar social”, expressão traduzida do inglês “social dreaming matrix” e cunhada por Wallace Gordon Lawrence e Patricia Daniel (Lawrence, 1998). O presente artigo busca ressaltar a importância do trabalho de C. G. Jung para o desenvolvimento das ideias do “sonhar social”. Para um detalhamento das hipóteses do sonhar social, e do dispositivo desenvolvido para a apreensão do significado social dos sonhos compartilhados – a matriz do sonhar social –, remeto o leitor interessado ao trabalho acima citado. 

 Têmenos - palavra grega que significa um lugar sagrado e protegido; psicologicamente, indica tanto um recipiente pessoal quanto o sentimento de privacidade que cerca um relacionamento analítico (Sharp, 1993, p. 153).

 Com base na teoria comunicacional sobre o sonhar, proposta pela antropologia cultural (Tedlock, 1991), elaborei uma definição operacional para o construto “sonhar social”, qual seja, sequência processual que envolve: a) o compartilhamento de sonhos individuais, b) as associações livres dos participantes, c) as conexões entre sonhos, d) a identificação de padrões associativos e amplificadores, e) a emergência de significados sociais (Gui, 2010, 2013).
 Fundada em 1920, recebeu o nome de Institute of Medical Psychology e, alguns anos depois, The Tavistock Clinic. É curioso saber que o Dr. Wilfred Rupert Bion, que se tornaria um expoente da psicanálise britânica, foi um dos cerca de 200 médicos que assistiram às cinco conferências de Jung, conhecidas na literatura junguiana como “As Conferências de Tavistock”. O Instituto acolheria, anos mais tarde, o surgimento das hipóteses de trabalho de Lawrence (1998) sobre o sonhar social.





Nenhum comentário:

Postar um comentário